Didier Eribon e o sujeito em devir: notas sobre Retorno a Reims.
O que primeiro chama atenção em um livro? O título? A capa? A forma como se apresenta ao toque? Talvez a espessura que pesa nas mãos, a cor, o brilho, o nome do autor. Talvez tudo isso. Talvez nada disso. Em Retorno a Reims, há um chamado que ultrapassa a aparência, que rompe com a superfície das coisas e nos arranca uma atenção que não se dá pelo sonho ou pelo delírio, tampouco pelas mentiras que contamos uns aos outros. Há, antes, um apelo ao sujeito que se expõe, que se oferece ao leitor ao narrar sua vida, sua infância, sua angústia.
Ler Eribon foi me aproximar deste homem quase ao ponto de tocá-lo. Folheei o livro entre noites e dias dos últimos meses, como quem acompanha um corpo que se abre lentamente. E aqui estou, tentando dizer algo sobre essa obra do filósofo francês Didier Eribon.
Com certa ingenuidade, apressei meus passos na leitura, desejoso de entender o que o autor tinha a dizer. Sua escrita, tão vivida, revela uma autobiografia contemplável e também assustadora. Há momentos em que ela narra, e outros em que acusa. Ao citar Sartre, Annie Ernaux, Pierre Bourdieu, Foucault e outros pensadores que o atravessam, Eribon ergue sua denúncia contra o sistema que o oprimiu, contra o pai, contra o ambiente social que o moldou. Fala das violências culturais e epistemológicas que sofreu e da difícil jornada de reconhecimento de si mesmo.
Há inovação em sua forma literária? Talvez não. Mas não se pode negar a coragem que há em escrever a própria história, em expurgar memórias, em transcrever a falta e o trauma. Pergunto se escrever sobre si seria uma extensão da análise, uma busca lacaniana por dar forma ao pensamento. Clarice já dizia que não escrevia para desabafar, mas porque tinha muito a dizer. Assim, parece necessário erguer a escrita como força: conhecer-se no presente pela via do passado. Como afirma Eribon, “é sempre um retorno para si e um retorno a si, reencontros com um eu tanto conservado como negado”.
Em Retorno a Reims, entrelaçam-se reflexão sociológica e memória íntima. Revisita-se o mundo operário, a história familiar, o corpo marcado por classe e sexualidade. Senti sua melancolia, sua raiva, seus nojos, sua ternura discreta. Vi nele um espelho da minha própria inquietação, atravessei o mesmo mal-estar clandestino e difuso. Surpreendi-me com a delicadeza com que nomeia lugares e pessoas. Ele assume uma vergonha social para, em seguida, reconhecê-la como estrutura. Fala da morte do pai e dos avós, da escola, das seduções que o atraíram: a arte, a estética, a imitação dos que admirava.
A leitura despertou em mim meu próprio retorno. Voltei à infância, à relação com meu pai, à angústia de ser filósofo. O passado reapareceu como matéria viva, e compreendi que retornar não é apenas lembrar, mas reescrever-se. Notei também um ritmo próximo ao de Édouard Louis em Mudar: método. Não por acaso, Eribon o auxiliou na revisão dos textos e talvez tenha contribuído para essa sedução trágica e erótica que atravessa ambos.
Termino aqui, mas Retorno a Reims permanece em mim.
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