Renascimento, Maquiavel e a Política Contemporânea: a Evolução do Pensamento sobre o Poder e a Moralidade.

 

O Renascimento é considerado um movimento cultural, artístico e político que aconteceu na Europa entre os séculos XIV e XVI. Esse momento marca, na história, uma transição da Idade Média para a Idade Moderna, na qual mudanças ocorreram e algumas características foram preservadas. O atual trabalho tem como objetivo apresentar esse período histórico como um ponto de partida para o pensamento moderno na esfera da política, com Nicolau Maquiavel, e como esse movimento influencia sua filosofia, tão conectada com os dias de hoje. Para isso, fez-se o uso de sua principal obra “O Príncipe”, e foram acessados sites e blogs especializados, cujas publicações complementam o conhecimento sobre o tema.

Ademais, devemos entender esse movimento como uma fase que buscou valorizar a Antiguidade Clássica e sua cultura greco-romana. Não houve, entretanto, uma ruptura radical com o medievo, mas um processo que se intensificou e ocupou novos espaços no cenário cultural e intelectual desse período. Descobre-se não só o valor do humanismo, mas também da ciência, das artes e da filosofia antiga. Sabe-se que o período medieval foi fortemente influenciado pela Igreja e pelos dogmas católicos. Com o Renascimento, a razão passou a ser valorizada progressivamente, em detrimento da fé e da crença como justificativas para os fenômenos da natureza. Havia a necessidade de um pensamento que questionasse a comodidade do pensamento predominante daquela época, pensadores como Maquiavel, Copérnico, da Vinci etc., resgatam a racionalidade, o humanismo e o antropocentrismo dos antigos.

Esse movimento cultural nasce em algumas cidades italianas, como Florença, Veneza e Gênova, que são consideradas seu berço por acumularem riquezas da burguesia comercial e da nobreza. Posteriormente, espalha-se para Portugal, Espanha, Holanda, Bélgica e outras regiões da Europa. Suas características são percebidas no desenvolvimento da cultura e das artes, que manifestam, em suas produções, o ideal renascentista. Esse ideal aperfeiçoa os métodos de estudo em diversas áreas do conhecimento, como a anatomia, a estrutura do corpo humano e a razão, elementos expressos na obra O Homem Vitruviano (1490).


No campo científico, pensadores como Nicolau Copérnico, Giordano Bruno e Galileu Galilei promoveram avanços significativos nas ciências naturais, desafiando a Igreja, que defendia uma verdade única baseada na crença. 

Além disso, o Renascimento foi marcado pelo antropocentrismo e pelo racionalismo. O primeiro consiste na doutrina que valoriza o ser humano, colocando-o no centro da criação divina e redefinindo a relação entre sociedade e religião. O segundo é a crença de que o conhecimento e a verdade só podem ser alcançados pela razão, em oposição às explicações baseadas unicamente na fé. Logo, as grandes mudanças nesse processo de ruptura com a cultura medieval, se encontra no desenvolvimento da burguesia devido às grandes navegações, a revolução científica e a reforma protestante.

No contexto renascentista, a política foi impactada diretamente. Enquanto no período feudal, com a forte influência da Igreja, o regime social era teocêntrico, com o Renascimento ele passa a ser antropocêntrico. Ou seja, o homem assume uma posição de destaque nas decisões políticas, sociais e econômicas. Com o declínio do feudalismo, houve o fortalecimento do poder dos reis e o surgimento das Monarquias Nacionais, constituindo novas cidades povoadas por artistas, nobres, artesãos, trabalhadores e pela burguesia. Esse contexto influenciou pensadores como Maquiavel a desenvolver suas ideias e marcar um pensamento filosófico moderno, desafiando as convenções de sua época.

Nicolau Maquiavel, um dos pensadores mais importantes na filosofia política, escreveu a obra O Príncipe (1532) e nela emergiu uma abordagem realista e pragmática do poder. Como aponta Guilherme Queiroz de Souza (2024), ao longo dos séculos, suas ideias têm sido objeto de intensos debates e análises, provocando reflexões sobre a natureza do poder e da conduta humana.

Por viver em uma época de agitação e grandes mudanças, Maquiavel desenvolve estratégias e princípios que garantem ao príncipe se manter e consolidar seu poder. Suas principais ideias estão localizadas no terreno da política, onde fez questionamentos ao pensamento tradicional platônico e aristotélico sobre política e moral. Isso diz respeito a três aspectos que determinaram a filosofia política de Maquiavel: I – a separação entre moral e política, quebrando a visão tradicional de que esses dois campos são inseparáveis. A moral, através das ideias desse pensador, está desvinculada às ações políticas e não deve ser entendida como regra, mas, como destaca Isabela Flor da Rosa (2024), como algo flexível, que compreendemos a partir das necessidades de um governante. Assim, podemos dizer que a moralidade daquele que detém o poder político é adaptável. Para Maquiavel, o príncipe não deveria ser guiado pela moral ou agir com bondade plena e duradoura, mas ser livre para decidir ser rígido, se for preciso, sugerindo que é melhor ser temido do que amado, como se encontra no seguinte trecho da obra: 

Surge daí uma questão: é melhor ser amado que temido ou o inverso? A resposta é que seria de desejar ser ambas as coisas, mas, como é difícil combiná-las, é muito mais seguro ser temido do que amado, quando se tem de desistir de uma das duas. Isto porque geralmente se pode afirmar o seguinte acerca dos homens: que são ingratos, volúveis, simulados e dissimulados, fogem dos perigos, são ávidos de ganhar e, enquanto lhes fizeres bem, pertencem inteiramente a ti, te oferecem o sangue, o patrimônio, a vida e os filhos, como disse acima, desde que o perigo esteja distante; mas, quando precisas deles, revoltam-se. (MAQUIAVEL, 2001, p. 80).

Ademais, II – o realismo político enfatiza a importância de encarar a política de maneira realista e pragmática. Maquiavel alcançou isso ao analisar a história política do passado, utilizando como exemplos as ruínas de antigas monarquias e os erros de reis e líderes em suas guerras, concluindo que havia um elemento comum nesses acontecimentos históricos: o interesse próprio e a conveniência dos governantes. III – a consolidação e a estabilidade do poder, pois o filósofo defendia que a segurança do Estado era mais importante do que a moral particular de um príncipe. Para isso, o governante deveria priorizar a manutenção do poder, exercendo força e controle sobre seu povo, sempre visando à virtù e à fortuna, ou seja, compreendendo e agindo conforme as mudanças no ambiente e nos acontecimentos do seu tempo.

A partir desses aspectos, Maquiavel expõe sua ideia de que "os fins justificam os meios" e declara: "A um príncipe, portanto, não é necessário ter, de fato, todas as qualidades supracitadas, mas é indispensável parecer tê-las" (MAQUIAVEL, 2001, p. 84). Essas interpretações sugerem que o governante deve alcançar seus objetivos mesmo que suas ações sejam moralmente questionáveis.

Dado o exposto, podemos encontrar, nos dias de hoje, alguns aspectos da filosofia política de Maquiavel aplicados a governos. A saber, o pragmatismo político passa a ser nítido, e a obra de Maquiavel ainda é usada como manual para que o chefe de Estado a estude e encontre estratégias para seus interesses. Rousseau, por outro lado, aponta que “O Príncipe” não foi escrito para o detentor do poder, mas para o povo entender como o governante age e, assim, se defender. As ideias expressas pelo filósofo são atemporais e podem ser adaptadas a qualquer época, pois contêm elementos fundamentais da civilização humana. Como avalia Pinto (2021), ao comparar seus escritos com a política contemporânea, podemos observar que muitas figuras conseguem a posição que almejavam, aparentando ser ideais para tal. Famosas campanhas políticas, a globalização, o poder bélico dos países etc. indicam fortemente temas que podem ser problematizados e debatidos através dos ensinamentos do autor. Por exemplo, candidatos que se aproveitam de falsas promessas e ideias para alcançar seus interesses particulares nos fazem questionar: o bom político é aquele que age moralmente para o bem comum e coletivo, ou aquele que se mantém no poder, independentemente de suas ações políticas?

Nessa perspectiva, nota-se em alguns países, como o Brasil, que muitos candidatos levam a política para o âmbito religioso, a fim de conquistar mais adeptos. O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, em sua campanha, usou como lema principal: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, utilizando-se da religião para alcançar seus objetivos através do povo.

Em resumo, podemos concluir que o Renascimento foi um marco importante para a consolidação do pensamento moderno, com suas grandes contribuições ao conhecimento humano, intensificando valores e aspectos que perduram até a contemporaneidade. A política, por sua vez, com Maquiavel, assume uma esfera realista sobre a conduta de um bom governante, a moralidade e seus ideais, e como a moral e a política podem ser autônomas, usadas a favor do particular e do poder. Influenciando as engrenagens do fazer político nos dias atuais, suas estratégias de propagação e de estabilidade.

-

Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento. 
email: jlucasalmeida255@gmail.com

-

Referências

PINTO, Bianca. Maquiavel e sua influência na política contemporânea: entenda!. Politize!, 24
de junho, 2021. Disponível em: https://www.politize.com.br/maquiavel/.Acesso em: 8 de mar, 2025.

ROSA, Isabela Flor da. Nicolau Maquiavel e o pensamento filosófico moderno. Aprova Total,
05 jul. 2024. Disponível em: https://aprovatotal.com.br. Acesso em: 8 de mar, 2025.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Maria Júlia Goldwasser. 2. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1996. (Clássicos).

SOUZA, Guilherme Queiroz de. A perspectiva da Ética e da Política sob a ótica de Maquiavel: uma análise crítica. A Filosofia do Bardo, 13 abr. 2024. Disponível em: https://afilosofiadobardo.blogspot.com. Acesso em: 8 de mar, 2025.

Imagem I: Copernicus, 1873.
Imagem II: O Homem Vitruviano, 1490.


Comentários

Postagens mais visitadas