O ROSTO DO OUTRO: MEMÓRIAS E ALTERIDADE EM CENTRAL DO BRASIL.


Por assistir pela segunda vez ao filme Central do Brasil (1998), dirigido pelo brasileiro Walter Salles, pude captar apenas agora a coisa humana encontrada na obra. E esta coisa é plural: é andança, é movimento, é um esforço de captar as relações que se constroem com o outro. Ora uma relação de mágoa, ressentimento, dor, raiva, ódio; ora uma relação de afeto, cuidado, lealdade e amizade.

O filme legitima o povo brasileiro, legitima a miscigenação desse povo, seus rostos, suas caricaturas; traz à vida os operários de Tarsila do Amaral. Traz à vida a inocência daqueles que querem mandar recados e que nutrem a esperança de serem abençoados pela escrita.

Quando Dora (Fernanda Montenegro) aparece em cena, não vejo apenas uma escrevedora de cartas: vejo uma esperança, um milagre, um Messias para o Central do Brasil. Dora é cruel, certeira com a caneta e o papel; ela ri, resmunga, completa a voz daqueles que não conseguem dar um desfecho às suas próprias histórias. Porque aqui, essas histórias relatadas no filme são reais. É um filme que se come cru, que se engole com inocência, que nos mostra um tempo presente ao passado, presente ao Brasil. É dado de presente: retratar um país e sua interioridade, sua seca, suas pessoas, suas paisagens, seus veículos, seus ritos, seu sol e sua lua.

O filme é Dora e o povo, mas também é Josué: a criança brasileira, a criança que não conhece o pai, que não possui infância, a criança teimosa, esperta. E é essa criança que desarma Dora, que leva a escrevedora de cartas a acessar o interior do Brasil e, consequentemente, o seu próprio interior. Dora vê em si mesma ainda sua beleza enquanto mulher, sua capacidade de amar, de se aventurar, de escapar para a vida desconhecida.

Josué nos atinge com sua pureza e com sua esperança de encontrar o pai. A relação entre a escrevedora e a criança esperançosa revela a fragilidade humana: sermos humanos diante dessa relação, sermos levados pela mesma busca de esperança e de encontro.

Quando Ana diz “Jesus, você foi a pior coisa que me aconteceu na vida”, o que seria então? O nascimento de Josué? O abandono do marido? A desesperança, a falta de resposta? Talvez tenha sido tudo um engano: o álcool de Jesus, o ofício de carpinteiro, a construção de casas. Mas também a memória de Josué, que o queria e se orgulhava do pai por ser capaz de erguer moradas.

O que também pesa na obra cinematográfica de Salles é a alteridade, que significa “alter”, “o outro”. Emmanuel Levinas, em sua teoria, nos alerta sobre as deficiências da ética do outro no mundo contemporâneo. A alteridade, na concepção levinasiana, destaca uma ética enquanto responsabilidade com o “outro”, porque é esse outro que evoca uma resposta responsável. O outro, aqui, é o rosto, e o rosto não é objetivo, não é aparência, rótulo ou julgamento; o rosto é o apelo que nos convoca à ética e à responsabilidade. Josué representa, então, esse rosto, esse “outro”, e seu rosto é uma sensibilidade anterior à razão.

E ainda, representa o sertão brasileiro como espaço existencial: espaço de crença, de humanidade, de fé, de ritos. É o espaço onde o filme projeta sua fotografia, que é das coisas mais belas nele. A maneira como esse Brasil é captado, como sua realidade nos é transmitida pela imagem, pelo movimento, é uma fotografia que nos encanta, que atinge nossas memórias e nossos afetos.

Não me arrisco a dizer qual seria a intenção do filme. Talvez não exista uma intenção. Não fui capaz de querê-la, não quis a mensagem dita. Quis, na verdade, o processo dessa mensagem: visualizá-la e senti-la.

Há um contraste ao longo do filme que associa esse símbolo humano ao símbolo da cidade com suas mazelas: as desigualdades sociais, o racismo, o abandono parental, a pobreza, a fome, o tráfico humano. Tudo isso nos faz olhar para o comum, para a realidade, que ao mesmo tempo nos aproxima e nos amedronta.

E aqui me aproximo da distância de Dora a Josué no fim do filme: suas memórias, sua fotografia, suas lágrimas aquosas. Aproximo-me, assim, de Central do Brasil.

- por João Lucas Almeida do Nascimento. 

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