Clarice Lispector: A Mulher das Mulheres e o Infernal em A Paixão Segundo G.H.





A Paixão Segundo G.H. evoca a dualidade de Clarice como autora que não descreve a realidade como a vemos, mas como a sentimos. Sua potência está em interiorizar essa realidade para além da matéria viva. Sua escrita, tão atonal, evoca o divino, o demoníaco, a humanidade, o tédio, o nojo, o horror, o ódio; evoca a misticidade, ora Deus, outrora o Sabá. Remete ainda a civilizações, pirâmides, animais, bichos, esfinges, arquitetura de um tempo passado e atual; um tempo que aguarda um futuro que não chega: “pois a atualidade não tem esperança, e a atualidade não tem futuro: o futuro será exatamente uma atualidade” (p. 61). E que tempo é este? Um tempo de espera, de silêncio, de entrada para o paraíso e o inferno. G.H. seria, então, a fatalidade? A mulher das mulheres que prefere o infernal? Seria o demônio ou o anjo? “Eu é que serei demoníaca ou anjo: se eu for demoníaca, este é o inferno; se eu for anjo, este é o paraíso” (p. 139). E G.H. é ainda Janair, é a barata esmagada pelo humano vivo? Melhor: G.H. é a parte espumosa da barata? É a própria matéria viva? É o amor? O perdão? É o deserto? A palavra mentiu para G.H. — e quem me garante que não mentiu para mim também? “A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro” (p. 181).

Quando essa mesma palavra se estendeu para além da sensibilidade de G.H, houve um desabo; um desabo que faz o leitor entretecer-se pela vida humana, perceber o próprio gosto insosso, experimentar o próprio sangue, a própria lágrima do outro, que, ao beijá-lo, se sente o gosto do seu choro. Uma sensibilidade que caracteriza a autora Clarice tão mutante que é, cheia de camadas, de olhos, de entradas e saídas. Uma autora que transcende o que nos é desconhecido e, mesmo quando conhecido, o destrói para dizer: veja, a atualidade queima; a barata existe e posso matá-la; eu vivo, e posso então morrer. Como assim quis, de súbito, uma revelação no quarto de Janair: sua força contrária para esmagar a barata ao meio, porque assim quis — revelar, pela força da existência, a paixão. A paixão encontrada nas areias dos desertos do Saara, encontrada na matéria viva, nos retalhos da identidade que somos, no imperceptível do amor, o amor que também é matéria viva: “porque amor é a matéria viva. Amor é a matéria viva?” (p. 65).

A obra de Clarice, escrita em 1964, abastece um fluxo de consciência advindo de G.H., que tem uma crise existencial ao encontrar uma barata em seu apartamento. Aqui, abre-se a reflexão sobre a identidade, a natureza, a existência, o eu e o mundo, e a brutalidade do cotidiano. A alma é revelada pela sua essência, que já não é mais translúcida, mas nua, de corpo largo e carente: “A revelação do amor é uma revelação de carência” (p. 153). E isso é coragem. Além: é possuir coragem; ser carente é possuir coragem; ser, enfim, a própria promessa do que se promete.

Minha afeição pela obra começou tardiamente, mas não pude deixar de lê-la durante minha vida jovial ou adulta, pois o que busco é um estado de sentir as coisas, de me atordoar por elas, de descrevê-las e escrever, escrever como a autora escreve – simples e sem enfeites. Abri risos em alguns momentos, afirmei: “Clarice não é inocente, ela sabe o que faz.” Sua escrita é puramente filosófica, por misturar vestígios de Dostoiévski, Aristóteles, Kafka, Sartre e Machado de Assis. Há influência, mas uma influência tão original e única que imortaliza um novo sujeito.

Lembro-me da primeira vez que li algumas páginas iniciais de G.H. e me deparei com seu fascínio por arrumar: “Sempre gostei de arrumar. Suponho que esta seja a minha única vocação verdadeira. Ordenando as coisas, eu crio e entendo ao mesmo tempo.” (p. 31). O que me cativou, já que entendo o ato de arrumar ou organizar as coisas como uma posse do tempo e do controle pessoal, você se sentir poderoso, se sentir assim: no controle. E isso era o que eu almejava: ter poder para controlar, nem que fosse nas coisas mais vulgares e pequenas que existem — varrer um chão, arrumar os lençóis de uma cama, passar um pano por cima da mesa, obter a estética da vida.

A força cósmica e visceral do livro me tirou letras, que se juntaram para serem palavras, e das palavras, frases, e das frases, colunas, e das colunas, edifício. O que conclui minha construção: Eu deveria ter lido Clarice. Naquele sofá — foi naquele sofá que eu deveria ter lido mais. Conversas soltas, corredores largos, sorrisos barulhentos. Ela conversava e escrevia quieta. Citava a vida porque cabiam em sua boca palavras grandes. Cabiam, naquelas páginas, farelos, pequenos farelos que me alimentavam. Comia, daquele momento, a solidão. Comia sem beber aquele livro; versos misturados, enumerados, parágrafos e parágrafos; mastigava a poesia dura. E tinha eu? Tinha. O espasmo de me perceber novamente ali. A pele jogada entre os medonhos instantes. A imaginação necrótica, viva. Dói-me lembrar daquele dia. Dói-me a verdade de Clarice. Ela também é minha. Mesmo longe do sofá, é minha. Sereno e lúcido: seu olhar. O calor daquelas mãos. Aquelas mentiras, enganos e intermináveis ditados. Me deixe. Deixe-me só. Parado.

- Por João Lucas Almeida do Nascimento.

Referência

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020

Imagem: Clarice Lispector. 

Comentários