Mudar: Método e a Escrita como Vingança.

 


Poucas vezes na literatura, e aqui em Mudar: Método, a literatura autobiográfica de Édouard Louis foi capaz de me amedrontar, me intimidar, me causar alívio e desconforto ao mesmo tempo. Seu processo de nascimento como escritor é uma revelação a mim, que o leio não para conhecê-lo, mas para enfrentar junto com ele sua metamorfose, sua consciência de autotransformação. 

O leitor é levado pelas páginas do livro a retomar junto com Édouard seu passado, mas também o seu presente, porque o leitor aqui é sua extensão, é o espaço onde sua história pode ser ouvida e considerada. Não é à toa que sua escrita, contemporânea, íntima e desnuda, se aproxima da de Annie Ernaux, onde sua força na linguagem é a mesma força com que assume os acontecimentos — sendo vítima ou sendo o agressor, assumindo o que sente, mesmo quando contraditório ou desconfortável.

Poupei o gesto de riscar a lápis as passagens que se rasgam pela pronúncia, mas não poupei o fôlego de continuar, não poupei o tempo para parar e pensar, não no que acabara de ler, mas me agarrei à sua escrita como coragem que outrora não tive e contínuo não obtendo.

E que coragem é essa? A coragem de mostrar-se, de contar seus toques íntimos, seus achismos, de ser banal, de não ter vergonha, de confessar seus crimes como se estivesse a sós, de confessar suas vontades como se elas se realizassem no ato de escrever, de confessar sua obsessão, confessar seus traumas, confessar seus desejos, e confessar que o que se conta não é a loucura, a anormalidade, mas o real, a pessoa real.

A genialidade de Édouard é visível, e seu trabalho com a obra me parece ter sido um trabalho cheio de retalhos, de enganos e certezas, de avanços e recuos. Mas isso não exclui o seu cuidado em escrever uma mensagem, um texto que se lê pela realidade e não pela ficção ou pela poética. Porque a realidade aqui é atraente, sedutora, sexual, significante. Seu dito é um ser vivo, alguém que nos arrasta para a narrativa em primeira pessoa.

Há uma semente que cresce no início e se expande por todo o livro: o desejo de vingança. Uma vingança que nos motiva a observar como alguém irá alcançá-la sem cenas de crime, sem violência explícita, sem denúncias diretas, mas pela reflexão da escrita, pela palavra palpável, que se segura com firmeza e penetra em nós como o próprio autor.

Cidades, músicas, livros, encontros, figuras homoeróticas, pai, mãe e amigos surgem como parte de uma rotina na obra. Não estão ali apenas como pano de fundo, mas como dispositivos afetivos e simbólicos que nos capturam. Eles também nos seduzem à vingança — não a vingança destrutiva, mas aquela que se vinga pela existência, pela nomeação e pela reinvenção de si.

E este foi o caminho que me fez dar um texto a outro texto. Não quero aqui abrir o livro, quero fechá-lo e exibi-lo às pessoas à minha volta. Mudar: Método não é apenas um título: é um gesto, é um imperativo. Na verdade, é isso: mudar-se. E ao fazê-lo, talvez, escrever também seja uma forma de se vingar do mundo.

- por João Lucas Almeida do Nacimento.

Referências

LOUIS, Édouard. Mudar: método. Tradução de Marília Scalzo. 1. ed. São Paulo: Todavia, 2024. 240 p.

Imagem: Escritor francês Èdouard Louis.

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