No ateliê de Picasso, corpos se expõem sem pudor: um segura uma máscara caída, outro toca uma música muda, enquanto um terceiro dorme, alheio e inconsciente. Uma tela vazia repousa ao fundo, esperando, talvez, que algo seja dito. É nesse espaço de representação, onde tudo é figura e ausência, que também escrevo. O texto que segue nasce desse estúdio interno, onde o amor e o fim se tornam papéis encenados, repetidos, revividos. Cada gesto, cada silêncio, cada abandono, tudo parece retomar o mesmo ato. E é por meio dele que construo meu próprio corpo, não o que foi tocado, mas o que permanece, inteiro, depois da cena.
...
O MESMO ATO
Como se constrói, constrói a si? Talvez me envolvendo com outra gente parecida comigo. Gente também mórbida, com a alma entalada entre ossos, sangue, miúdos, glumos e glicose, tudo em movimento.
Toco a campainha? Arrisco o pouco de vida que me resta, entre os sustos da noite, o não movimento das ruas, os lugares fechados? Faço tremer o chão de sua casa, de seu quarto, espanto-o como ele fez comigo? Ou não? Fico. Fico pelo desejo, pela façanha de desejar mais. De suprir o agora e não a dor de ontem, o gosto do não dito, a ausência.
Me permitir mais. Subir no alto, ver a bagunça espalhada pelos cômodos, vestir-me e ir para o meu quarto. Apagar todas as luzes, esfriar a visão. Sentir o frio, o gotejo se secando antes do impacto. O vento preguiçoso me confortando. Como pude? Me permitir mais, mais pra quê? Foi maldita e banal a dúvida. Não comer durante horas, segurar uma vida jovem por cima da cama. Maldito. Um mal dito. Um contentar-se ferido. E que fique. Seu corpo não ficou. Virá outro, e depois passará de novo. Mas ficará o meu: inteiro, edificado pela permanência, e não pela fuga.
Minha jovialidade é sagrada. Ela não se contenta com o mínimo; sangra por mais, sempre por mais. O pudor que carrego é meu e o venero. Não permitirei que cães latam ou saqueiem aquilo que guardo aqui dentro. Sua paixão, envelhecida e paralisada pela busca por segurança, carece de astúcia. Você não ver a verdade, porque seus olhos são fechados pelo peso das mentiras que você lacrimeja.
Quando finalmente você for aquoso, eu já serei rio que lava; já serei riacho sobre suas pedras afiadas. Passarei por ti, fluido, sereno, por cima do concreto que te prende. Sentirei orgulho por ter tentado. E, diferente de ti, que outrora desistiu da tentativa, acertarei a medida — e ela será cheia. Vai transbordar em taças, matará a minha sede eternamente. Além da idade, além da mudança que te expurga daqui.
Qualquer um, pelas calçadas, é mais corajoso que eu, pois pede ajuda, estende os braços, se expõe com a roupa amarrotada. Quando assim, pude perceber minha franqueza. Quis falar, trouxe pra fora da boca minha goela. Com meus bolsos vazios, também nego. Digo que não tenho nada, mas tenho, sim. Digo que não porque já me é natural erguer meros e não necessidades. Escapo um pouco pra fora. Obtive chaves, enchi garrafas, amassei esponjas, subi escadas, degraus. Apressei os passos, a respiração, para chegar logo. Fui ligeiro. Pude ser ligeiro.
Ergueu seus limites depois dos meus. Observou-me. Precaveu-se daquilo que não quis ofertar. Assumiu como outro, desconhecido, assombroso. Apostou. Com seu sim, apostou no depois. Pensou: “basta, melhor assim”. Desabrochou. Agradeceu a demonstração de carinho através da palavra pronta — não da mão.
Escrevia pra mim aqui, ali, pouco, mas escrevia. E pra si? Em curtas frases, detinha o fervor da vida. Escrevia: Estou feliz? Sou feliz? Estou cansado. E ponto. Ponto final. Bethânia, Nando, Gal, Ângela, Rita, Clarice, seres apoteóticos desse fim. Belos, porque quem é belo, é belo de ver. Morreu? Não.
E será que, de seu ato, fará o mesmo ato? Convidará mais um para a mesma conversa, a mesma roupa, os mesmos potes? Fará com que outro se sente e se afunde no sofá? Veja a rede se desfiar inteira? O vento entrando pela frente, o sotaque de sua voz acrílica. Escondendo o cinismo. A malícia de tocar um corpo mais jovem que o seu, de mexer seu pescoço e suas mãos pequenas por outra pele. Esquecer do calor. Dormir cedo e expulsar do lar o novo que se chega. Tortura. Voltará para o antes. Porque seu poder precisa ser maior. Precisa ganhar, não pode perder. Suas justificativas precisam ser mais valiosas, seus compromissos mais importantes, seus limites menos negociáveis. E assim, fará, sim, de seu ato o mesmo ato.
Não pronuncio seu nome mais. Curto. Breve. Junção de apenas quatro letras. Te invocar com essa pronúncia seria me apurar da aflição. O que fazes agora? As mensagens dissipadas por aí sem destino. Não saber dói. Esperar dói. Dói a noite. O dia. Se passou algumas horas apenas. Foram horas que nos mataram. Queria não saber contar. Contar o tempo? Ser recente e a isso perder-se.
Profundamente, sinto que nossos laços se desataram por vontade sua. A rapidez com que fui deixado por ti. O sumiço, o desespero de ficar só. Era eu quem queria tanto? Ou era você quem temia isso muito antes? Pegou minha frustração, meu ressentimento, minhas mágoas para, novamente, me incriminar por sua falta de coragem, por sua covardia de escapar da verdade. Minha raiva incessante era vontade incessante. Meu amor virou ódio diante do seu não existir. Chamar-te de escroto, apontar o dedo em sua cara, em tom alto que, além da altura, pudesse ser mais, te desmontar por inteiro. Mostrar seu verdadeiro véu. Te entregar o escudo de que precisarias para se esconder. Fazer, de novo, por ti, a sua obrigação. Tu nunca foste belo, nem de alma, nem belo de bom. A podridão te encharca por dentro e tua vida será buscar, entre os escombros, formas de cobri-la.
Nem a memória, nem a lembrança, nem prédios, nem pontos de referência, nem pessoas, nada mais me causará tanta ternura quanto saber que o amei um dia. Me expor a isso foi me expor ao teu querer. Entregar o que sou, desenhado por linhas subjetivas e reativas do nosso elo. A repulsa, o evitar, que parte de mim para ti, e de ti para todos ao teu redor, para aqueles que te favorecem, que te alimentam com certezas que, sabe Deus, apenas te demonizam.
Chateou-se com a ideia de lar, mas que lar? A casa, sufocada pela poeira dos carros, engolida pelo ruído das ruas e das vozes. Um lar fixo, amarelo, imóvel. Chamar isso de lar? Eu esperava liberdade, não controle; esperava ideias fluídas, não conceitos finitos. Casa, que casa? Nunca houve, nem para mim, nem para ti. Não eras tu o andarilho de outras cidades? Tua insatisfação com esta já não é antiga demais? Hipocrisia. Nada jamais te será lar enquanto fores assim, inabitável por dentro.
E seja verdade, meu dizer, porque tenho respostas em mim, as respostas me são dadas por mim mesmo. E meu erro foi este: não amar demais, mas quem amar, quem receber meu amor, quem o quiser. Meu valor, minha dignidade, foram sobrepujados. Sua manipulação foi tamanha, seu jogo comigo, minha disposição tomada, meu cuidado, meus feitos. Meu direito de sentir, me tomaste por inteiro.
Não adianta, não terei mais nada de ti. Meus sintomas me assombram, enquanto os seus te dão vitalidade. E você sabe que o tempo não cura nada, não sabe? Vai passar hoje, amanhã, essa semana, na outra semana, e você pensa que irei parar de sofrer? E sofrer fisicamente. A saúde sendo transgredida. Como dormes, sabendo do que fez?
Chega. O diabo foi segurado.
Mantenho-me em pé, e você, no chão, descansado do seu próprio fardo.
Minha arte me salvará, e minha nudez será minha luz.
E, por acaso, as tulipas não nascem e depois morrem?
Os símbolos não são ressignificados?
O papel, dissolvido?
O que vem de fora pode ser tomado e tirado,
mas o que vem de dentro se detém dessa maneira?
Não.
O que se mantém dentro: sentimentos, a paixão,
é o que permanece seguro e protegido,
porque a fala é muda quando se vê o fim.
- Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento
Pintura: "O Estúdio" (Le Studio), criada por Pablo Picasso entre 1927 e 1928.
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