UMA ANÁLISE FILOSÓFICA DA AUTONOMIA E DA EUTANÁSIA EM "MAR ADENTRO"
O filme espanhol Mar Adentro (2004), dirigido pelo
jovem chileno Alejandro Amenábar, retrata em sua história uma das questões mais
emblemáticas de nossas existências: a morte, ou ainda, a escolha pela morte.
Aqui, o tema da eutanásia e do suicídio assistido se torna uma abertura para
discutir respeitosamente os critérios de aceitação, luto, escolha e os motivos
que abastecem esse acontecimento. Se a intenção do diretor com o telespectador
era envolvê-lo numa relação familiar e íntima com o personagem principal da
obra, Ramón Sampedro, interpretado pelo ator Javier Bardem, assim foi feito, de
modo que os diálogos, os cenários e a dinamicidade dos acontecimentos
assumissem esse papel do início ao fim da produção.
A saber, a vida de Ramón, um homem de meia-idade, muda
tragicamente depois de um acidente que teve ao pular de cabeça em direção ao
fundo do mar, que representa profundidade, beleza, imensidão, mas, para o
personagem, um momento de dor. Pois, a partir desse momento, ele ficaria
paraplégico por mais de 20 anos e desejaria a morte. Passando a viver numa
residência com o irmão mais velho, José, seu pai, o sobrinho Javier e a cunhada
Manoela. Ademais, uma advogada chamada Júlia passa a visitá-lo para acompanhar
seu processo de convencimento à corte espanhola para alterar a lei e atender
seu pedido de eutanásia, que na Espanha era proibido. Nessa curta sequência de
contato de Júlia com Ramón e os residentes da casa, somos levados a questionar
o pedido da morte, como ela o questiona: 'Por que você quer morrer?'. A
resposta é dada, e nela se encontram todos os sentimentos puros em relação à
vida, que a julga limitada perante a sua indigna condição. O que nos leva a
pensar: qual o valor da vida humana quando marcada por deficiências que tolhem
a liberdade e a autonomia?
Quando falamos de autonomia, devemos entender seu
significado: autonomia é ter poder sobre si mesmo e isso, particularmente, pode
ou não incluir o direito de decidir sobre a própria morte, algo que ainda hoje
é problematizado e debatido. Já que o suicídio é uma questão moral, envolvida
por direitos individuais e deveres sociais. Algumas perspectivas filosóficas,
como a do filósofo Hume, acatam essa decisão como algo não prejudicial à
sociedade. A vida humana é valiosa enquanto se pode vivê-la, sendo capaz de
senti-la e experimentá-la diariamente. E, quando essa tentativa é barrada por
motivos trágicos que tomam sua liberdade e autonomia, esse valor é finito e
acabável.
Em continuidade, quando não se encontram mais motivos
para viver, como é o caso de Ramón, é preciso desmitificar o sentido da morte,
respeitar a decisão individual, aceitar a razão de escolha, que aqui não se
trata de esperança e otimismo, mas de realismo, da dor do outro, de sua vida. O
pedido para morrer ou uma solicitação de suicídio deve ser compreensível e
aceitável. Se é eticamente justificável ou não, devem ser levados em
consideração fatores predisponentes, nos quais estão incluídos fatores
clínicos. A dificuldade que o filme nos mostra é a dificuldade da vida do
corpo, da mente e da alma que o personagem enfrenta, levando-o a escolher a
eutanásia.
Portanto, a libertação de uma existência 'indigna',
para Ramón, é o suicídio. E até aqui, esse tema é um conflito ético, porque
afirmar 'eu quero morrer' coloca em questão não só o direito individual, mas
também o papel da sociedade e da ética em relação à vida humana. Essa decisão
de pôr fim à própria vida, quando se é tirada a autonomia e a liberdade, abre
um debate sobre a aceitação da eutanásia e do suicídio assistido.

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