O Banquete e a Filosofia do Amor: Diálogos entre Platão e Bell Hooks.
Ao longo da história da filosofia, o amor tem se mostrado um tema universal e profundamente humano. Em O Banquete, de Platão, o filósofo grego apresenta um diálogo que atravessa o tempo e explora o amor sob as perspectivas filosófica, trágica e mitológica. Escrito entre 385 e 370 a.C., em pleno período clássico da Grécia Antiga, a obra se insere num contexto culturalmente sensível em Atenas, ainda marcada pelos reflexos da Guerra do Peloponeso. Nesse cenário, Platão constrói um pensamento que associa o amor ao divino, apontando-o como um impulso que transcende o corpo e visa o belo em sua forma mais pura.
A pluralidade de vozes em O Banquete permite uma abordagem multifacetada do amor, abrindo espaço para interpretações que dialogam tanto com o mundo clássico quanto com a contemporaneidade. Enquanto Platão propõe uma concepção metafísica do amor, a autora feminista Bell Hooks, em sua obra Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas, oferece uma visão prática e ética do sentimento, compreendendo-o como uma ação transformadora. Para Hooks (2020), mudanças profundas na forma como pensamos e agimos precisam acontecer se quisermos criar uma cultura baseada no amor.
O que se entende por moral e sexualidade na Antiguidade Clássica é que, a partir do século VI a.C., havia uma considerável liberdade em matéria sexual na vida dos indivíduos gregos, em que o amor e o contato entre corpos eram vistos como uma manifestação divina, inspirada na deusa Afrodite. A prática da pederastia (a relação erótica entre o amado e o amante, ou seja, entre o mais velho e o mais novo) possuía um caráter pedagógico, sendo permitida até mesmo pelas famílias, que viam nessa relação uma forma de transmitir aos mais jovens uma educação pautada em valores masculinos.
Aqui, Eros é apresentado não mais como uma busca pelo belo em termos corpóreos, isto é, este ou aquele belo amante; antes, revela-se em sua verdadeira natureza divina (daimon), como amor "relativo ao belo". Esse amor ao belo, por sua vez, deseja a imortalidade, e ao contrário do amor corpóreo entre homens e mulheres, que satisfazem tal anseio através do contato sexual, o amor da alma pode dar à luz criaturas de outra natureza, "mais belas e mais imortais": as criações do espírito, como os poemas de Homero ou de Hesíodo (209c-d). Tal concepção eleva o amor a um plano ontológico, no qual o desejo pelo belo se transforma em um caminho para a sabedoria e para o eterno.
Com o advento do cristianismo na Idade Média, essa visão do amor e da sexualidade sofre uma profunda transformação. O corpo e o prazer passam a ser reprimidos, e a moral sexual cristã impõe normas rígidas, condenando práticas antes aceitas, como o sexo fora do casamento e a homossexualidade. O amor passa, então, a ser associado à culpa e ao pecado, inserido num sistema de valores que privilegia a obediência à norma e à instituição religiosa. Essa mudança estabelece uma ruptura entre o amor carnal e o amor divino, gerando um falso moralismo que perduraria por séculos.
Já na modernidade, com o avanço das ideias iluministas e liberais, começa-se a promover a separação entre esfera pública e privada, o que inclui a privatização da vida sexual. Como aponta o filósofo Eduardo Wolf, essa transformação não elimina o peso moral herdado, mas contrasta fortemente com a dura realidade social enfrentada por grande parte da população. Ainda assim, surgem novas formas de pensar o amor e a liberdade, abrindo espaço para discussões mais subjetivas e existenciais.
Falar sobre o amor é desafiador, porque o amor é jovem e delicado. Teme-se falar sobre o amor hoje em dia, porque sua potência seja maior do que aquilo em que nos tornamos ao longo dos séculos. E Bell Hooks anuncia esse fato ao nos apresentar inúmeros relatos de sua experiência enquanto mulher inserida nesta modernidade marcada pela desordem e pelo desamor. Em sua obra, ela descreve as maneiras pelas quais homens e mulheres, de forma geral, desenvolvem sua capacidade de amar dentro de uma cultura patriarcal, racista e niilista, relacionando sua teoria do amor aos principais problemas sociais contemporâneos. Sua definição central de amor é a de que o amor é uma ação, e não apenas um sentimento. Como aponta no primeiro capítulo da obra “O amor é o que o amor nos faz. Amar é um ato da vontade – isto é, tanto uma intenção quanto uma ação. A vontade também implica escolha. Nós não temos que amar. Escolhemos amar. ” (HOOKS, 2020, p. 47).
Já o filósofo clássico da Grécia Antiga, Platão, introduz o amor como uma dialética para alcançar o belo e o divino, propondo uma aproximação com Hooks ao tratar o amor enquanto conceito filosófico capaz de operar mudanças em prol do desenvolvimento humano. No discurso de Sócrates, presente em O Banquete, ele relata todo o seu aprendizado sobre o tema por meio da estrangeira Diotima. Nessa passagem, é possível identificar a preocupação de Platão com o aprendizado e com a introspecção necessária para que possamos compreender, de fato, o que é o amor. Nos questionando do início ao fim do discurso, Sócrates finalmente afirma que o amor, como ouviu da estrangeira, é um grande Nume, isto é, uma divindade de menor categoria. E aponta “[...] o amor é o amor de se ter sempre consigo o bem. ” (PLATÃO, 2024, p. 70).
Ao unir essas duas visões - a metafísica de Platão e a prática de Hooks, é possível compreender o amor como uma força capaz de elevar a humanidade. Platão ensina que o amor busca o bem permanente; Hooks lembra que esse bem só pode ser alcançado por meio de ações concretas. Ambos apontam para a mesma direção: o amor é um caminho de aprendizado, introspecção e mudança.
- Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento
Imagem I: O Banquete, de Platão, representado por Anselm Feuerbach (1873)
PLATÃO. O
Banquete. Introdução, tradução do grego e notas de Bernardo Lins Brandão.
1. ed. São Paulo: Vide Editorial, 2024.
HOOKS, Bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas.
Tradução de Ana Luiza Libânio. 1. ed. São Paulo: Elefante, 2020.
NUNES, CA. Diálogos de Platão-A república (vol. 7); O banquete (vols. 3-4). 2. ed. Belém: Edufp, 2002.
WOLF, Eduardo. Ética e sexualidade: normatividades em perspectiva histórica. In: TORRES, João Carlos Brum (org.). Manual de ética: questões de ética teórica e aplicada. 1. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. p. 711–732.

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