Oréstia: A Maldição dos Atridas e a Origem da Justiça em Athenas.
Oréstia, a única trilogia de peças gregas que chegou até nós, é uma das obras mais emblemáticas da tragédia antiga. Apresentada em 458 a.C., essa trilogia é composta por Agamêmnon, As Coéforas e As Eumênides. Escrita por Ésquilo (525-456 a.C.), o dramaturgo grego amplamente reconhecido como o fundador da tragédia, sendo responsável por inovações que transformaram a cena teatral, como a introdução das máscaras, o uso do coro e a invenção do diálogo como elemento essencial na trama.
Ademais, essa trilogia possui um conjunto de peças que dramatiza a constituição de uma nova legislação em Athenas. A primeira das três tragédias de Oréstia chama-se Agamêmnon, considerada a melhor. Como pontua Mário da Gama Kury (1991): "É bem representativo do entusiasmo que esta peça sempre despertou o conhecido julgamento de Goethe, para quem Agamêmnon é a 'obra-prima das obras-primas'".
Os principais personagens são Agamêmnon, filho de Atreu, rei de Argos e Micenas, comandante dos gregos na guerra de Troia; Clitemnestra, filha de Tindareu e Leda, irmã de Helena; esposa de Agamêmnon; Egisto, filho de Tiestes, primo de Agamêmnon e amante de Clitemnestra; Cassandra, filha de Príamo, rei de Troia, profetisa trazida por Agamêmnon como troféu de guerra; além da Sentinela, do Arauto, do Coro composto por doze anciãos argivos fiéis a Agamêmnon e do Corifeu. Nota-se na peça que os gregos também são chamados de Aqueus, Argivos ou Helenos, enquanto Troia é conhecida como Ílion.
A peça se baseia na lenda dos Atridas, família do comandante grego na Guerra de Troia. Pêlops, herói do Peloponeso e filho de Tântalo, veio da Lídia até Élis para conquistar Hipodâmia, filha de Enomau, com a ajuda de Mírtilo. Após obter seu objetivo de forma traiçoeira, Pêlops mata Mírtilo, que lança uma maldição contra ele e sua descendência, a qual afetará toda a sua família.
A maldição da família de Pêlops é vivida na primeira geração de descendentes. Os filhos de Pêlops, Atreu e Tiestes disputam o trono de Micenas. Tiestes seduz a esposa de Atreu e, com sua ajuda, rouba um carneiro de ouro que deveria garantir o trono a Atreu. Embora Atreu seja proclamado rei com a proteção de Zeus, ele se vinga, expulsando Tiestes e, mais tarde, fazendo-o comer seus próprios filhos.
Na geração seguinte, Agamêmnon, filho de Atreu, busca vingar seu irmão Menelau na Guerra de Troia, mas, para acalmar Ártemis, é forçado a sacrificar sua filha Ifigênia, o que provoca a raiva de sua esposa, Clitemnestra. Durante sua ausência, ela se envolve com Egisto, filho de Tiestes, e juntos tramam a morte de Agamêmnon. Quando ele retorna da guerra, é assassinado por Clitemnestra e Egisto. Orestes, filho de Agamêmnon, deve vingar a morte do pai, matando Egisto e sua mãe, Clitemnestra, para que a maldição se complete.
Ao falar de algumas das cenas na peça, a Cena I descreve o incômodo dos sentinelas com a ausência do rei e apresenta a narração dos feitos anteriores até a partida para Troia. Nesse momento, Clitemnestra faz um discurso sobre a vitória, cuja legitimidade é questionada. Na Cena II, no pátio do palácio, Clitemnestra recebe a notícia da queda de Troia trazida por um arauto. Ela reafirma sua confiança nos sinais que previram a vitória, enquanto o coro expressa dúvidas e inquietação sobre o retorno de Agamêmnon e os presságios sombrios que acompanham a guerra.
Em seguida na Cena III, Agamêmnon retorna triunfante a Argos, seguido pela profetisa Cassandra. Clitemnestra o recebe com honrarias, estendendo tapeçarias púrpuras que simbolizam poder e sangue.
Os deuses do alto e os das profundezas, os numes dos santuários e das ruas ostentam todos os altares cheios de inumeráveis, ricas oferendas; aqui e ali as chamas sobem lépidas levando ao céu o incenso lisonjeiro até nos mais recônditos recantos (ÉSQUILO, 1965, p. 31).
Relutante, Agamêmnon aceita a homenagem, enquanto Cassandra profetiza tragédias iminentes. A tensão cresce quando todos entram no palácio, deixando no ar o peso do destino.
A peça constrói uma narrativa envolvente, evidenciando conceitos fundamentais das tragédias gregas, que também se manifestam em outras obras do gênero. Em Agamêmnon, temas como justiça, amor, vingança e destino permeiam cada ato, revelando as tensões entre os desejos humanos e as forças inescapáveis dos deuses. A busca por justiça se confunde com atos de vingança pessoal, destacando a fragilidade das fronteiras entre o que é justo e o que é motivado pela dor e pelo ódio. O amor e a lealdade, por sua vez, são atravessados por traição e sacrifícios, como visto nas ações de Clitemnestra, cujo papel ambíguo desafia as noções tradicionais de dever e virtude.
Além disso, a peça aborda a fatalidade, mostrando como o destino traçado para a casa de Atreu é implacável, reforçando a ideia de que os pecados dos pais recaem sobre os filhos. Assim como acontece em Édipo Rei, de Sófocles, em que o protagonista é vítima de uma profecia que o condena desde o nascimento, a maldição que recai sobre Agamêmnon e seus descendentes parece seguir a mesma premissa.
Logo, essa visão trágica do destino, comum na tragédia grega, sugere uma concepção de justiça e um orgulho de ter a manipulação dos deuses nos feitos dos homens. A peça, por Ésquilo, é uma fonte de reflexão sobre os dilemas morais e os conflitos que emergem entre as leis de vingança e os ideais de justiça.
Trecho de musical encontrado na peça (p.33):
Os dois valentes reis Aqueus de mente unânime
levaram para Troia a gente grega
portando as lanças ansiosas por vingança,
tocados por presságio favorável:
de súbito surgiram ante os reis, senhores
de tantas naus e homens, duas águias
rainhas das alturas; uma, toda negra,
a outra quase (tinha o dorso branco),
voando nas proximidades do palácio,
cortando os ares nítidos do lado da mão que brande as armas; ambas atacavam,
terríveis, ávidas, pejada lebre;
a vítima, desesperada, contorcia-se
na luta por fugir daquelas garras,
da morte próxima que logo acabaria
com as céleres carreiras e com tudo;
mas foi em vão; as duas águias devoraram-na
e aos filhos inda ocultos em seu ventre.
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Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento.
Acadêmico do curso de Filosofia da Universidade Federal do Amapá.
email: jlucasalmeida255@gmail.com
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REFERÊNCIAS
ÉSQUILO. Oréstia: Agamêmnon, Coéforas, Eumênides. Tradução do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. 8. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
Imagem: Getty Images, disponível em: https://pt.dorit-meir.com/resumo-da-trama-de-agamenon-de-esquilo

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