Fenda e Sopro


As pálpebras, rubras de inquietação, traíam a tentativa de disfarçar a aflição que nascia diante do outro. No copo, a água cristalina tremulava sob o calor do dia, prometendo saciar uma sede que mal abafaria o gosto amargo que repousava na boca. O desejo de tocá-lo, de decifrar os poros entreabertos por onde a vida insistia entrar.

Ao redor, o chão, as aves, as folhas, reféns de um vento impiedoso, exibiam cores opacas, como se a realidade se esquivasse de sua própria consciência. Mas o que havia a ser dito? Gritar acusações? Erguê-las como lanças ou esmagá-las como pragas? Não. Não era hora de morrer em pensamentos, de tecer diálogos com a ausência. Tudo clamava por movimento, por vida que desafia a dor da solidão que espreita — a dor de quem se recusa a parar.

Torcia os ossos em formas incertas, como se o corpo buscasse um abrigo impossível. A tosse, feroz e faminta, escapava pelas frestas das portas, ecoando como um lamento que atravessava o tempo. Sabia, com a clareza de quem contempla o destino, que logo se perderia para as horas, dissolvendo-se no fluxo incansável do instante. E amava, como se tudo que restasse fosse o gemido de respirar por si e por todos à sua volta.

Temia o regresso ao que um dia foi lar. As paredes tortas, sujas de memórias, testemunhavam o peso de um passado que insistia em se repetir como um eterno presente. Temia, sobretudo, o que retornava dentro de si: aquela coisa familiar que o chamava de volta. Não havia fuga possível daquela estranha melodia — o chiado do rádio, o arrastar de passos pesados, a luz o invadindo sem pudor, janelas escancaradas, cortinas finas. O sofá puído, os lençóis de veludo desbotado, os latidos fantasmagóricos. Tudo ali, pulsando, embora já tivesse sido dado como morto.

E sentia-se só, mais uma vez, sobre o breu gelado que engolia a tarde. Seu único refúgio era recolher-se, dobrar-se em si como quem foge. Os delírios, imundos e incontáveis, fervilhavam em sua mente; o olhar, cabisbaixo, evitava os espelhos. Os sorrisos, imprevisíveis como faíscas, denunciavam os crimes felizes. Sabia, de longe e de perto, o que teria que ser feito. Mas o quê? E quem? Urgia a vida, atirava um grito mudo: vida, vida, vida antes que a solidão fosse tudo.

Tateou o agora como quem busca sentido no vazio e, reclinado no divã, fez-se dono de um ódio brando, um ódio por existir assim, tão presente e insuportável. De súbito, desejou esquecer, morrer por um instante e abraçar o fardo do que fora feito. Vestiu-se, então, da própria nudez, como quem veste a pele pela primeira vez, e adormeceu, polido, vivo, aquecido e palpável, um corpo nu, despojado da vergonha que o mundo impunha.

Foi quando viu: nuvens despencavam do céu, frágeis, como se o peso do firmamento já não lhes coubesse. Caíam, desfeitas, para longe do horizonte. Ouviam-se murmúrios leves, quase inexistentes, o rufar de batidas ligeiras e o sopro do ar roçando seus lábios. Ele respirava junto com o mundo, mas aprendeu a calar para que do ruído florescesse o silêncio. O silêncio das coisas que respiram sem serem vistas. Das pessoas miúdas do tédio da vida.

E logo, o espanto dos retratos e as milícias das palavras — a força de deixar no passado as antigas rapinas. Enganar os próprios enganos, esquivar o golpe e devolvê-lo com precisão. A poética de ser inteiro, destinado a sentir e, mais ainda, a saber que sente. Ponderar uma alma suplicante, anímica e carregada de medos. Parar, aqui e agora, no espaço que separa as colunas pronunciáveis.

— Salvação — ele murmurou.

Ignore. Não ouça o que digo.

— Salvação — repetiu. — Salvar-se.

Lançar-se, enfim, às águas turvas e geladas do rio.

...

- por João Almeida.


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