Conto "Miúdos"
MIÚDOS
Houve um crime à luz do dia. O horror assombrou os antigos moradores daquele povoado. O sangue escorria pelas ruas banhadas pelo sol, enquanto a poeira, aos poucos, se acumulava sobre ele, formando uma crosta escura e fétida. Um cheiro pungente que atraía a atenção dos curiosos. Quem devastou aquele homem por dentro? Quem arrancou suas vísceras de forma tão brutal, tão carnal? Quem foi capaz de fazê-lo morrer, sangrando sem fim? Foi isso o que aconteceu: ele sangrava um rubro intenso, o líquido quente que o mantinha vivo naquela terra desolada.
Então, o corpo se paralisou. Sem vida, sem movimento, um corpo sacudido pela presença dos vivos, rodeado por olhares que, ao vê-lo, lhe concediam uma última forma de existência.
— Quem foi que fez isso? — perguntou uma mulher, a voz baixa como se temesse que a resposta pudesse emergir do próprio chão manchado.
Ninguém respondeu.
O velho, de chapéu nas mãos, cuspiu ao lado e sacudiu a cabeça, a poeira grudada às rugas profundas do rosto.
— Não foi humano... — murmurou, quase para si mesmo.
— Foi, sim. Só um homem faz isso com outro, — replicou um jovem, os olhos fixos no sangue que desenhava um mapa grotesco pelo chão. — Bicho mata por fome, por instinto. Isso aqui... isso é diferente. Isso é vontade de destruir.
— E o que ele fez pra merecer isso? — perguntou alguém ao fundo, a voz sumindo no calor da tarde.
O velho se virou devagar, os olhos cansados encarando o nada.
— Merecer? Ninguém merece morrer assim. Isso não é sobre merecer. Isso é só morte.
Um silêncio pesado se seguiu. Os curiosos, agora menos curiosos, começavam a se dispersar, mas os olhos ainda relutavam em deixar o corpo.
— Vão enterrar? — sussurrou a mulher novamente, a voz trêmula.
— Enterrar? — o jovem riu seco, sem alegria. — Pra quê? Pra esquecer mais rápido? Ele já está enterrado, só que à vista. Aqui, no meio da rua. E daqui ele não vai sair enquanto a gente não parar de olhar.
O velho suspirou fundo, o peito cansado como se carregasse o peso de todas as mortes que vira. Colocou o chapéu de volta, apertando a aba contra a testa.
— Enterrar não é pra ele. É pra nós.
E desse ato, se pendurou os últimos suspiros daquele cadáver, esculpido pelo que lhe era estranho. Morreu. E, com a morte, não lhe restou mais nada, nem o gosto seco da boca, nem a violência das palavras, nem a força de crer no que outrora sabia. Não amava, não sentia ódio, tristeza. Não carregava mais sequer o peso da consciência. Partiu encolhido numa caixa de quatro lados e afundado num chão duro. E em poucos instantes, o vento varria os rastros; o sol queimava os vestígios. O dia seguia impassível, indiferente, porque aquela morte, tão íntima, era apenas um ato comum da solidão. E o corpo, que já não era corpo, não mais lar, não mais nome —, tornava-se coisa. Tornava-se silêncio, um entre os muitos que se perdia sem pressa, sem propósito.
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Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento.
email: jlucasalmeida255@gmail.com

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