Filosofia Brasileira: Conquistas, Perspectivas e o Desafio da Autenticidade.




No que diz respeito ao exame das conquistas e das perspectivas da filosofia brasileira contemporânea, considerando o passado colonial, a inserção na comunidade internacional e as expectativas acerca do futuro, é certo que essa disciplina tem se tornado um campo de intenso diálogo e reflexão. Desde suas origens, marcada por uma visão eurocêntrica, a filosofia no Brasil vem buscando superar a marginalização das produções locais e os processos de epistemicídio. Além da pertinente busca de valorizar a originalidade e a autenticidade de seus alcances no globo. Assim, é fundamental investigar como essas dinâmicas moldam o futuro da filosofia no país e contribuem para uma previsão segura e sólida à sua continuidade.

Ademais, a maior das reviravoltas é, sem dúvida, a quebra do complexo colonial, no que diz respeito às três maiores conquistas do último período. Sendo elas: I – o aparecimento dos virtuoses do ofício-scholars, eruditos e especialistas – que vão ocupar a cena; II – a aquisição da techne filosófica condizente com o novo estado de coisas, que acompanha os virtuoses e se define como sua ferramenta de trabalho, variando com os objetos a que se aplica, ao ser empregada pelos exegetas, epistemólogos, historiadores, “eticistas” e metafísicos, ainda, é preciso considerar que, ao ocuparem a cena filosófica brasileira, os virtuoses trouxeram consigo as tradições, as escolas e as correntes da filosofia, algumas recentes, outras mais antigas, gerando em diferentes pontos do país um verdadeiro mosaico; III – o surgimento do sistema de obras, abarcando as autorais, as de divulgação, teses de doutorado, ensaios, papers etc. E ao qual mais tarde, e em tempos mais favoráveis, se acoplou o ethos republicano do intelectual público, colocando o filósofo e a filosofia na rota da política com tudo o que ela implica.

Em continuidade, outras conquistas permitiram o avanço da filosofia brasileira e abriram caminho para os chamados filósofos brasileiros. A saber, uma das maiores conquistas dos últimos cinquenta anos foi a criação do SNPG. Um sistema que permitiu o avanço da massa crítica e a ampliação das atividades filosóficas, resultando em um espaço nacional de diálogo e troca de conhecimento entre pessoas com perspectivas crescentes sobre a filosofia e suas vertentes. Havendo, não mais, o isolamento. Outra vitória foi a formação de um público de leitores mais amplo e diverso, quando finalmente se consolidou a relação entre autor, obra e público. Como se sabe, todas essas conquistas representam uma revolução no modus faciendi da filosofia brasileira, consolidando o surgimento dos filósofos brasileiros, que se abasteceram nessas bases e apoiaram os virtuoses e as technai para propagar mudanças significativas a essa filosofia.

Para alcançar essas importantes mudanças na cena filosófica brasileira, é necessário vencer o preconceito de gênio legado pelo Romantismo Alemão, ou seja, o gênio das artes, que faz do pensador e do artista uma espécie de semideus único e incontrolável. E também, vencer o preconceito da originalidade, associado ao preconceito de gênio, nas artes e também na filosofia, que leva à busca da originalidade e da obra incomparável. Nesse sentido, é fundamental reconhecer que, como afirma Marilena Chaui: “A filosofia não é obra de um gênio individual, mas de uma atividade coletiva que atravessa os tempos e as culturas, renovando-se no diálogo constante entre o passado e o presente” (CHAUÍ, 1994).

Sobre a inserção na comunidade internacional, Marcos Nobre sugere um novo modelo, que implica uma nova maneira de o Brasil se posicionar no cenário internacional. Tal modelo é baseado nas redes digitais e a nova inserção é horizontal, em vez de vertical. Isso permite que haja diferentes formas de subordinação no contexto internacional, ao mesmo tempo em que proporciona uma autonomia significativa, onde, no final das contas, a filosofia se encaixa nesse novo ambiente. Dessa forma, o paradigma das redes se impôs como princípio organizador da produção cultural em geral e do conhecimento acadêmico universitário em particular. Ou seja, o Brasil em grande escala se insere no cenário internacional com grandes vantagens competitivas. Ao se mover no espaço virtual do futuro e das possibilidades , nasce um novo tipo de intelectual-filósofo: o intelectual cosmopolita globalizado.

Em síntese, é notório que o Brasil já dispõe da techne e da experiência para fazer filosofia. Mas é certo que essa filosofia ainda está marcada pelas fortes influências do processo de colonização que ocorreu não apenas aqui, mas em toda a américa latina. É quando se discute sobre sua originalidade e sua autenticidade, para assim haver um espaço a sua relevância e ao seu devido reconhecimento. E ainda, se causa a impressão que até hoje a filosofia não se realizou entre nós, apenas esboçou um começo. Nesse início, percebe-se que as Américas e a Europa compartilham influências dentro de um processo civilizatório interligado, reconhecendo a filosofia como uma das grandes realizações humanas, ao lado da ciência e das artes. Ou seja, admitido isso, é que será possível antever o futuro incerto que nos aguarda, movido por perspectivas futuras e o anseio de contínuas mudanças a essa filosofia, que ainda hoje sofre pela falta de reconhecimento e visibilidade nos grandes centros.


- Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento. 

Acadêmico do curso de Filosofia da Universidade Federal do Amapá. 

email: jlucasalmeida255@gmail.com


REFERÊNCIAS

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994.

O quadro “Pátria”, de Pedro Bruno, 1919, representa a confecção da primeira Bandeira do Brasil. Pertence ao acervo do Museu da República, no Rio de Janeiro. / Via senadofederal.tumblr.com

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