O Pensamento Filosófico de Enrique Dussel e sua Crítica à Tradição Filosófica Ocidental a partir da Realidade Latino-Americana.
Enrique Dussel, em sua obra "A Filosofia da Libertação" (originalmente Filosofía de la Liberación), publicada pela primeira vez em 1977, aborda sua crítica à filosofia ocidental moderna, que nos faz repensar o papel da filosofia no mundo contemporâneo, destacando a importância de um pensamento descolonial que desafie as estruturas de poder vigentes. E ainda, sua obra é um convite para que olhemos para a periferia como o verdadeiro espaço de inovação filosófica, onde novas formas de ser e de pensar podem surgir em prol de uma realidade mais justa e equitativa.
A filosofia ocidental moderna, construída em torno do ego cogito cartesiano, contribuiu para uma visão de mundo fragmentado, inferiorizando aqueles que são da margem e estabelecendo uma divisão ontológica entre o centro e a periferia. A saber, a Europa, ao se autoproclamar centro do saber e da civilização, marginalizou culturas e povos, relegando-os à condição de "subdesenvolvidos", "irracionais" ou incapazes de gerar conhecimento. Esse processo de dominação filosófica não apenas legitima as práticas coloniais e neocoloniais, mas também alimenta uma estrutura global de exclusão e opressão que ainda persiste nos dias atuais.
Dessa forma, Dussel nos convida a reconsiderar a história da filosofia como parte desse sistema de dominação. Ele argumenta que, para além do pensamento hegemônico do centro, existe uma filosofia que nasce da periferia, uma filosofia da libertação. Essa corrente de pensamento busca reverter a lógica da centralidade europeia, afirmando que a verdadeira filosofia deve emergir das lutas dos oprimidos e das experiências daqueles que vivem à margem do poder. Ou seja, a periferia com sua história de resistência, oferece uma crítica poderosa ao eurocentrismo, propondo uma nova ontologia que valoriza a diversidade e a pluralidade de visões de mundo.
Partindo da gênese histórico-ideológica do que pretende pensar e dando preponderância à sua impostação mundial, o filósofo expande esse debate nas questões sobre Geopolítica e Filosofia em suas obras - onde explorando a íntima relação entre geopolítica e filosofia, foi possível destacar como o poder se estrutura em termos de espaço e território. Apresentando como exemplo os tempos de Heráclito até autores contemporâneos como Kissinger. Ademais, Dussel reflete sobre como o espaço é transformado em um campo de batalha, onde o "centro" (as potências dominantes) impõem sua vontade sobre a "periferia" (os territórios subjugados). Essa relação, segundo ele, revela a falsidade da ideia de "coexistência pacífica", pois o equilíbrio de poder é sempre imposto através da violência e da opressão.
Desde Heráclito até von Clausewitz ou Kissinger, “a guerra é a origem de tudo”, se por tudo se entende a ordem ou o sistema que o dominador do mundo controla pelo poder e pelos exércitos. Estamos em guerra. Guerra fria para os que a fazem; guerra quente para os que a sofrem. Coexistência pacífica para os que fabricam as armas; existência sangrenta para aqueles que são obrigados a comprá-las e usá-las (DUSSEL, p.8, 1977).
É notório, como destaca Dussel (2006) a história da filosofia, marcada pela lógica do 'centro' e 'periferia', revela um processo contínuo de construção de uma ordem mundial em que a geopolítica se sobrepõe à ética, pois o poder se exerce por meio de uma imposição de espaços. O 'centro' não apenas define a ordem política, mas também impõe uma ordem epistemológica, filosófica e moral, subjugando aqueles que habitam a periferia. A ideia de 'coexistência pacífica' entre esses dois polos é uma falácia, pois o equilíbrio do poder está sempre alicerçado na violência e na exclusão.
Dessa forma, para deter esse processo violento de exclusão, o filósofo, no capítulo 'A Questão Dialética e Analética no Processo da Libertação Latino-Americana', da obra Método Para uma Filosofia da Libertação, propõe uma reflexão sobre a situação histórica, filosófica e existencial da América Latina a partir de um viés de libertação. Ele utiliza dois conceitos centrais: a dialética, que remete a uma relação de oposição e superação dentro da realidade, e a analética, que se refere a um movimento de ruptura radical, um salto para além das contradições impostas pela realidade imediata.
Dussel parte da crítica ao uso da dialética hegeliana, que enxerga o progresso histórico como um processo de superação interno dos conflitos da sociedade, mas que, segundo ele, limita-se a uma visão eurocêntrica. A dialética, embora importante para compreender a realidade de opressão e contradições sociais, como a exploração e a dominação colonial, não é suficiente para dar conta do contexto latino-americano. Isso porque, para ele, a dialética muitas vezes apenas reforça a posição dominante. Logo, a dialética tradicional, centrada na história europeia, não leva em consideração o "outro", porque definitivamente a dialética é una, como aponta o autor:
Para Hegel, definitivamente, a dialética é una: a dialética da natureza, do espírito na história e na história da filosofia. O absoluto que se manifesta primeiramente como o absolutamente indeterminado em-si, o ser, percorre um caminho impulsionado pelo movimento dialético; este caminho é único; o método é o próprio caminho: percorrido por um astro, por uma planta, pelo homem como história ou como saber absoluto. Na imanência da subjetividade absoluta do espírito, toda dialética é una. Toda dialética, porém, e é mais grave, tem como fundamento a identidade do ser e a totalidade, isto é, o movimento dialético é o desenvolvimento de “o mesmo” (DUSSEL, p.215, 1974).
É nesse ponto que entra a analética, um conceito que Dussel desenvolve para expressar a necessidade de um rompimento radical com as condições de opressão que marcaram a América Latina. A analética envolve uma abertura para a alteridade, para o "outro", que foi historicamente marginalizado, silenciado e oprimido. Na prática, isso significa que a libertação latino-americana não pode ser compreendida apenas como uma resolução dos conflitos internos da sociedade, mas deve envolver um reconhecimento profundo desses agentes. Como aponta Melo e Nery (2024) a práxis dusseliana, que enfatiza a necessidade de (de)colonização, nos convida a refletir sobre a importância de libertar pensamentos e posturas que perpetuam a opressão e a exclusão.
Em conclusão, Enrique Dussel, apresenta uma crítica radical à filosofia ocidental e ao eurocentrismo, ao mesmo tempo em que propõe uma abordagem filosófica que nasce das lutas e experiências dos povos oprimidos, principalmente da América Latina. A dicotomia centro-periferia, presente nas estruturas de poder, torna-se um campo de análise essencial para entender como o saber e o poder foram historicamente configurados, perpetuando a exclusão e a violência. A dialética, embora importante, é insuficiente para explicar a realidade das periferias, e é por isso que Dussel propõe a analética como um conceito capaz de romper com essa lógica e abrir espaço para a alteridade. A libertação, para ele, não se resume à resolução de contradições internas, mas à transformação radical das condições de opressão que estruturam a sociedade global. Ao enfatizar a importância de uma filosofia que floresce da periferia, Dussel nos convida a repensar as estruturas epistemológicas e políticas que sustentam as desigualdades, oferecendo uma reflexão profunda sobre a necessidade de (de)colonizar o pensamento e a ação. Assim, sua crítica se configura como um convite urgente à construção de um mundo mais justo, onde o “outro” possa finalmente ocupar o centro do debate filosófico e político.
REFERÊNCIAS
DUSSEL, Enrique. Método para uma filosofia da libertação. São Paulo: Loyola, 1974.
DUSSEL, Enrique. Filosofia da libertação. São Paulo: Loyola, 1977.
DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2006.
MELO, Juliana de Lima; NERY, Vitor Sousa Cunha. Contribuição de Pedro Cardoso, 'Seu Roque', para a promoção da saúde infantil na Ilha de Santana - AP. 2024.
Imagem " Mapa antiguo de AMerica Latina"


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