Os Fundamentos da Filosofia Católica Barroca no Século XVI e XVII: contribuições de Padre Manuel da Nóbrega, Padre Antônio Vieira e outros pensadores.



Nascido em Sanfins do Douro, no norte de Portugal, em 18 de outubro de 1517 e se formando em direito canônico e filosofia pela Universidade de Coimbra em 1541. Padre Manuel da Nóbrega (1517-1570) foi um missionário jesuíta português que liderou a primeira missão jesuíta enviada para a América. Ele Ingressou na Companhia de Jesus em 1544 e pela sua atuação competente e dedicada foi escolhido para fundar a missão no Brasil. Assim, chegou ao país em 1549 como superior nessa tarefa, composta de cinco padres e irmãos.

Nóbrega escreveu as Cartas do Brasil (1549-1570), os Diálogos sobre a conversão do gentio (1556/7) e o documento conhecido como Plano civilizador (1558). Nas quais são encontradas suas principais ideias e discussões. Ademais, no campo da teologia, o guia espiritual de Nóbrega é Santo Tomás, além de ter influências em suas cartas de Erasmo e inspiração espiritual em Santo Agostinho.

A saber sobre seus textos, estão sempre voltados para um fim, que poderia ser ou à necessidade da catequese dos índios, ou a defesa deste contra o invasor branco. E ainda a defesa da supremacia da moralidade cristã, o fortalecimento do povo contra a invasão estrangeira e a proteção dos brancos contra a barbárie antropofágica de certos índios.

Além disso, seus principais problemas de repercussão filosófica se encontram em suas obras constituídas de objetivos diretos a sua tarefa. Como a evangelização, a educação e a proteção dos indígenas, estabelecendo e promovendo missões jesuítas.

Por certo, a obra As Cartas do Brasil podem ser divididas em dois períodos: a) os primeiros dez anos, em que Nóbrega foi superior maior de todo o Brasil (1549-1559); b) os últimos dez anos, em que governou a capitania de São Vicente (1559-1570). No primeiro período predomina o evangelizador, preocupado com a conversão dos índios, momento no qual Nóbrega estuda os índios e os seus costumes, avaliando o que poderia favorecer ou dificultar a conversão. No segundo período predomina o estadista.

Adiante nos Diálogos sobre a conversão do gentio Nóbrega discute os procedimentos necessários para conduzir os indígenas à fé cristã. Estabelecendo três etapas para a conversão dos índios: catequese, batismo e perseverança. Wilson Martins vê os Diálogos sobre a conversão do gentio como uma refutação sardônica do conhecido capítulo XXXI do Livro I dos Ensaios, em que Montaigne elogia os canibais. Nessa passagem, o pensador francês afirma que os indígenas não são inferiores aos civilizados e até mesmo vivem numa sociedade mais perfeita.

Em comparação, o indígena por Nóbrega é considerado um ser humano como o homem branco , devendo permanecer livre e não escravo. Ou seja, o pensador argumenta que os índios são capazes de se converter porque são homens e porque muitos já se converteram. O importante seria criar condições extrínsecas aos índios , capazes de facilitar-lhes a conversão. Outro aspecto que deve ser notado na obra em questão é a menção de Nóbrega aos escravos africanos, considerados necessários para manter o sustento dos colégios e possibilitar assim a educação das crianças indígenas.

Em síntese, os textos de Nóbrega possuem relevância para a filosofia política. Pois, os seus textos de acordo com José Eisenberg constituíram um prenúncio de duas importantes mudanças conceituais para a compreensão das fundações do pensamentos político moderno: a legitimação do poder político pelo consentimento e o conceito de direito subjetivo. São neles que Nóbrega uma teoria do consentimento gerado pelo medo como fundação legítima do poder político. Nos Diálogos ele apresenta a justificação de uma estratégia mais eficiente para a conversão dos índios e no Plano Civilizador propõe a criação da mais importante instituição missionária dos jesuítas – a aldeia.

   Padre Antônio Vieira (1608-1697)

Nascido em Lisboa, Portugal, no dia 6 de janeiro de 1606. Padre Antônio Vieira (1608-1697) foi uma das maiores figuras do pensamento luso-brasileiro do século XVII. Encarregado de evangelizar os índios durante a colonização, fez sua primeira viagem ao Brasil com 6 anos de idade e aqui estudou no colégio jesuíta de Salvador, conseguindo ingressar na ordem dos jesuítas em 1623.

Ademais, se constata que a contribuição de Vieira para a reflexão filosófica brasileira e lusitana é bastante significativa. Segundo Calafate, o interesse de Vieira para a filosofia em Portugal desdobra-se por áreas que vão desde a ética, a filosofia política, a antropologia e a filosofia da história, sem esquecer as questões da estética da linguagem.

 O jesuíta é autor de diversas obras, as quais podemos destacar: Sermão do Bonsucesso das Armas de Portugal contra os de Holanda (Bahia, 1640); Sermão da Sexagésima (Lisboa, 1655); Sermão de Santo Antônio aos Peixes (Maranhão, 1653); Sermão da Primeira Dominga da Quaresma (Maranhão, 1653); Sermão do Mandato (Lisboa, 1643); Sermão do Rosário (Bahia, 1633); Esperanças de Portugal (1659); História do Futuro (1718) e Clavis Prophetarum (obra inédita e só traduzida e publicada em 2000).

A saber sobre os problemas filosóficos e as principais discussões tratados por esse autor, é certo que o seu pensamento constitui uma das mais vividas expressões da nova cultura que se formava a partir do contato do português colonizador com a realidade dos trópicos. Havendo temas brasileiros em suas discussões, como a questão dos negros, dos índios e da guerra contra os holandeses invasores. Além de evidenciar o problema da escravidão, a noção de conversão, a oratória e a filosofia da história.

No que diz respeito à escravidão, as ideias de Vieira sobre esse tema são expressas na série Maria Rosa Mística (1686, 1° volume; 1688, 2° volume), especificamente nos sermões XIV, XX e XXVII. O primeiro desses sermões, possuindo especial importância confere um caráter estratégico e ideológico no contexto da época. Para o jesuíta, são três os fatores que distinguem os senhores dos escravos: o nome, a cor e a fortuna. Em resumo, Vieira adota a perspectiva de que o avanço do cristianismo justifica o apelo à escravidão. Ainda, no que diz respeito ao índio, Vieira vê o índio primordialmente como o primitivo a ser catequizado e arrebanhado para o seio da família cristã.

 Quanto à oratória, as ideias de Vieira se encontram expressas no conhecido Sermão da Sexagésima. De um modo geral, os temas que orientam os sermões de Vieira incluem a vida de Jesus Salvador, o céu, o inferno, a morte, o tempo, os vícios, as virtudes, os mártires católicos e as heresias. A importância filosófica do Sermão da Sexagésima, de acordo com Luiz Alberto Cerqueira, está na sua caracterização da conversão de uma alma como o entrar um homem dentro de si e ver-se a si mesmo, visto que a noção vieiriana de conversão se distingue inteiramente do cogito cartesiano. Por último, outro aspecto importante do pensamento de Vieira está na sua filosofia da história, que envolve uma forma de milenarismo.

Diogo Gomes Carneiro (16187-1676)

Nascido no Rio de Janeiro, em 1618, Diogo Gomes Carneiro (1618-1679) foi contemporâneo do Padre Antônio Vieira, e é tido como o primeiro brasileiro a publicar um livro de prosa. Além de ter sido Secretário do Rei Dom Afonso, que o nomeou Cronista geral dos Estados do Brasil. Seu nome está no Catálogo dos Clássicos da Academia das Ciências de Lisboa.

Gomes Carneiro escreveu a Oração apodíxica aos cismáticos da pátria, publicada em 1641. Foi nessa obra que o autor procurou combater o pernicioso vício da traição, principalmente aquele revelado pelos portugueses que se passaram para o lado espanhol no período que vai de 1580 a 1640. Trata-se, portanto, de um ensaio político e moral, cuja novidade se encontra na acentuada lusofilia.

Em síntese, Diogo Gomes Carneiro teve a pretensão de mostrar a importância histórica do Império português e para isso recorre a uma doutrina filosófica de caráter moralista em forma de máximas e argumentos. A partir disso, o autor ilustra uma das linhas de força que direcionam a literatura brasileira desde os seus inícios. Além de contribuir para reforçar a atitude do transoceanismo no período colonial.

Alexandre de Gusmão (1629-1724)

Nascido em 15 de agosto de 1929, em Lisboa, o padre Alexandre de Gusmão (1629-1724) veio para o Brasil aos 15 anos, em 1644. Estudou no Colégio do Rio de Janeiro e ingressou na Companhia de Jesus. Durante seus primeiros anos no Brasil, começou seus estudos humanísticos e desenvolveu sua trajetória acadêmica. Foi um jesuíta muito ativo e tornou-se conhecido como pregador e asceta.

Ao longo de sua vida, Gusmão produziu várias obras, destacando-se entre elas a História do predestinado peregrino e seu irmão Precito, em a qual debaixo de uma misteriosa parábola se descreve o sucesso feliz do que se há de salvar e infeliz sorte do que se há de condenar (1682), um romance alegórico e moral que é considerado o primeiro romance escrito no Brasil e precursor do romance brasileiro. E a Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia (1685), um tratado pedagógico que oferece aos pais brasileiros um modelo para a educação de seus filhos na fé cristã.

A saber, a sua obra publicada em 1682 apresenta uma visão dualista do universo, contrapondo este mundo ao outro mundo, Deus ao demônio, a santidade ao pecado. Uma visão dualista que é característica da estrutura mental brasileira da época. Esse livro é dividido em seis partes e foi escrito na forma de parábola porque, conforme justifica o seu autor, assim Jesus falava ao povo.

Para Gusmão os seres humanos são vistos como peregrinos ou como desterrado da nossa verdadeira terra, que é o céu, em virtude do pecado de Adão, ou como caminhantes para o céu em virtude dos méritos de Cristo. O pensador é motivado pelo desencanto e pelo inconformidade com a situação vivida, que estimulam, como filosofia de vida, a rejeição do mundo. Seu pensamento filosófico, expresso em sua obra alegórica e doutrinária, visa à edificação do leitor por meio da doutrina cristã alegoricamente exposta. Em síntese, o autor expressa com clareza a visão de mundo do Brasil Colônia e se filia a Santo Agostinho.

-

Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento. 
Acadêmico do curso de Filosofia da Universidade Federal do Amapá.
email: jlucasalmeida255@gmail.com

-


REFERÊNCIAS

MARGUTTI, Paulo. História da filosofia do Brasil: o período colonial (1500-1822). São Paulo: Editora Loyola, 2013.

Comentários