Conto "Adagio sostenuto".
Adagio sostenuto
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| A Batalha de Anghiari, 1505. Leonardo da Vinci. |
Para Vitória Campos Belo
“— El secreto, por lo demás, no vale lo que valen los caminos
que me condujeron a él. Esos caminos hay que andarlos”.
Sabe-se, entretanto, que mais de cinco séculos intercalaram a manhã em que se deu por pronta a invenção de Hottetere e Philidor e o longínquo páramo oriente onde se punham em marcha os exércitos que intentaram pela primeira vez cruzar os Cárpatos: estes ditos búlgaros, desse dito quarto Khan, daquela Horda Dourada de Batú e de Ordá, a mão esquerda que descia de Cazã.
Morto Temudjin, rei dos mongóis, ao qual seu povo chama Grande Khan, ascenderam ao trono seus filhos, como constava, escrita com cálamo e nanquim, no capítulo das conquistas, no cânone de número oito mil novecentos e trinta e quatro da infinita Dadian de Yongle, hoje perdida. Terrível entre os Khans de sua linhagem fora Ogedai, que desde as margens do Orcom, que desce sinuoso de Khangai, regeu trezentos túmens, cada qual com legiões de bravos hunos, para domínio e flagelo de outros povos. Mas rezam os escritos que Ogedai, rei entre o Tuur e o Tamir, não era tão valente qual Zhu chi, o bastardo, filho de cem merquites, gerado sob um ventre conspurcado.
De Zhu chi, que impôs o jugo Iuan sobre a Sibéria, as crônicas gravadas em papel pelos dois mil sábios de Zhig tai contam que engendrou dois filhos, aos quais chamo Batú e Ordá, e estes foram valentes sobre a terra. De Batú se originou a Horda Azul, primeiro dos regimes de canato a destronar cem reis do Volga até os Bálcãs. De Ordá a Horda Branca, canato de Syr Dárya, um dos quatro rios do paraíso.
Chegada a Horda Azul ao baixo Volga, nas margens do Mar Cáspio, já longe das nascentes de Valdai, distante do deságue do Kama profundo, o exército foi visto pelos Rus. Surgiram, sobre os montes, cavaleiros, vestidos de seda vermelha, com arcos curtos e espadas – àquele tempo a pólvora ainda não havia inflado alma aos arcabuzes. Lembraram-se de mitos milenares, de homens parte gente, parte equino, guerreiros impassíveis, monstros que a galope faziam tremer a terra, e os temeram, e puseram-se em fuga. O que de nada adiantou. De entre a neve dura das colinas, os homens de Batú baixaram às planícies e mataram, em dois dias consecutivos de escárnio, os velhos, as mulheres, as moças, as crianças, e, por último, os homens, que a tudo assistiram – a toda crueldade – atados pelos pés e pelas mãos.
Conquistado o baixo Volga, dominados tanto o norte quanto o leste do Mar Cáspio, Batú mandou chamar o irmão Ordá. Mandou que um emissário buscasse entre os campos sua tenda e lhe informasse da veracidade das lendas que contara um viajante ao filho de Tolui, agora Grande Khan sobre os mongóis. Que dissesse que as cidades existiam, cada uma com seus muros, com seu ouro e suas torres. Que viesse armado com seus homens, e que, além disso, mandasse tecer um estandarte de terror, a flâmula que infundisse medo à distância entre as hostes inimigas e demonstrasse o poder imensurável de suas mãos. Por último, pediu que mandasse trazer queijo, coalhada e mel, que os cavaleiros dispusessem entre a montaria e a sela as postas maciças de carne e as trouxesse a si (e quanto a esse costume, Amiano Marcelino o atesta no trigésimo primeiro livro de seu Res gestae), e, sobretudo, que levassem a ele as folhas de chá, para que não tivessem de baixar ao estado primitivo dos vencidos enquanto preparavam sua marcha, bebendo a água dos riachos e comendo as rudes reses, tão menores que as renas e os iaques, bois sagrados de Tengri.
Ordá recebeu o emissário de seu irmão e organizara suas forças com esmero. Mandara buscar, do outro lado da grande muralha, a maior seda que o imperador produzisse e fez que a bordassem toda em ouro, com desenhos de demônios flamejantes, com olhos cujo fogo não se apaga.
Antes do quarto canato ser o último resquício do antigo poder dos Khans mongóis e a pólvora plantar com arados de chumbo o medo dentro e fora dos limítes da grande muralha, Shartag, filho de Batú, fez subir outra vez às terras dos búlgaros do Volga os tártaros restantes das forças da Horda Azul e da Horda Branca, derrotados além do Mar Negro (chamado ainda outrora Euxino). Lá, sob a fronde das montanhas, fundou Cazã, e a ela cercou de um canal, a fim de defendê-la de invasores e para proteger suas riquezas.
Instalado em sua cidade, Shartag instituiu como voivodas seus vassalos pelo leste, e ao sul, entre a barbária dos desertos, deu sátrapas zhochidas para os persas, e de todos eles cobrava tributos anuais, em troca de auxílio militar. E como narrado pelos seculares anais dos haicos, da velha Herevã, quando Alexandre I, senhor de Kiev e seu amigo, pediu socorro a Shartag contra os sérvios teutônicos, a Horda Dourada novamente desceu o Volga e pela primeira vez foi chamada “a mão esquerda de Cazã” (a vingança contra os tártaros viria cento e trinta anos depois, e onze mil deles baixariam ao escuro seio de Umay), e em agradecimento pelos tártaros debandarem as forças de André, Alexandre, entronizado Grão-príncipe do Oblast de Vladimir, enviou a Cazã muitas riquezas, entre elas uma lira de ouro, fonte de lendas de gigantes e reinos erigidos sobre as nuvens, e muitos instrumentos, acompanhados por mestres de música; livros e obras raras vindas do chifre dourado, na margem esquerda do Estreito do Bósforo, guarnecidas por escribas competentes, aptos a copiá-las e instruídos em todas as línguas; prata e jóias, mulheres e cavalos, púrpura e tecidos.
Enquanto a cabeça decepada de Chaka, o conspirador, era enviada a Tokhta Khan, Giyás, filho e órfão do príncipe Togrilcha, era mandado por sua mãe ao país dos circassianos, terra de seus antepassados, nos páramos entre o Syr e o Amur Dárya, deserto de Kyzyl Kum, onde os ventos gestariam outro Khan, e desde aqueles anos, Alláh o inspirava em sabedoria. Giyás, nome ao qual se acresceria “Uzbeque Al-Din Mohammed”, viajou de Bukhara a Herat, no ermo abandonado. Lá encontrou as ruínas de reinos antigos, morada de reis estrangeiros, como ele. Mandou trazer de Cazã, por intermédio de sua mãe, os livros que Alexandre enviara, códices antigos, de letras a si certamente ilegíveis, caractéres de outros povos. Uzbeque foi o último a ouvir, pela boca de Eirenos, neto dos primeiros enviados de Vladimir, os melos de Telesila, as graças de Hipônax e os doces sons dos versos duma lésbia, cuja cópia que restara em Bizâncio, sem que ele soubesse, haviam queimado a pouco os homens do Dodge de Veneza e de Bonifácio I. De lá foi a Teerã, onde fora instruído em letras persas. Seguiu de Teerã a Bagdá, cruzando entre loas o Cufa e o Baçorá, o Curaçã e o Damasco. Anos depois, Uzbeque lutaria com seu sangue em vingança pela destruição de Bagdá e pelo fim do Califado Abássida de Al-Mutassim, seu amigo.
Subiu num barco azul, com Eirenos, o Rio Tigre até Mosul, onde ganhou seu novo nome e temendo a inimizade de Tokhta Khan, margeou por reinos amigos o Mar Negro até Tômis, onde viu a estátua de um poeta, em meio ao que chamavam “praça”, e quando tornou-se Khan sobre os muros de Cazã, após a morte de seu tio e a subsequente supressão dos infiéis que negavam as palavras dO Profeta — e que Ele descanse no paraíso —, mandou que a trouxessem ao seu palácio e toda a Horda Dourada, sob seu comando, temeu a Alláh – também dito Al-Maalik –, contemplou o rosto de mármore de Ovídio e marchou ao som da música de pífaros pela primeira vez, como narrado por Badir Al-Din Al-Ayni, admirador do grande Khan, no Alradu alwafir, suas justas réplicas.
Contudo, em Laurenciano de Nizhni, das chamadas Terras Inferiores de Novgorod, difere o narrado, e escreve, em sua continuação das Crônicas de Nestor, que ao mudar a sede da Horda Dourada de Cazã para Mukhsha, Uzbeque ordenou que flautistas viessem do reino da Hungria, que se cunhassem dirrans de escrita cúfica e que sem misericórdia submeteu aos seus domínios tanto burtas quanto khazares, tornando-se, além de Khan, sultânico supremo dos hunos do Ocidente.
Alguirdas, o vil, rei dos lituanos, tomando de assalto as terras tártaras, nos úlus da Moldávia e da Podólia, enfrentara, na Batalha das águas azuis, três dos últimos grandes beys do quarto Khan. Matou a quantos pôde. Fez com que os demais fugissem temerosos. Livrou da sanha moura os planos de terra preta, onde disse o grego de Túrio que habitavam formigas menores do que cães, mas certamente maiores que raposas, fato que não se nega nem se atesta. Cortadas as amarras do canato, também a rubra Ruthenia, Volínia e Odessa, todas, uma a uma, recobraram a liberdade a tanto oculta. Ficaram, do velho Khan, apenas os dirrans e as flautas, mas os turcos voltariam, ainda o flagelo de Alláh, desde o Volga a Buda e Peste, e depois até Viena.
Solimão, o magnífico, cruzou o Savo e o Drava da Caríntia e em barcos de altas velas fez trazer de seus domínios os canhões que comem pólvora, e os campos de Mohacs, escolhido pelos húngaros de Luís II, que intentava repetir no lodo fundo outra Azincourt, foi campa seca aos crus maometanos. Nem bem o sol comera trinta graus do orbe azul, estava encerrada a batalha. O feito foi narrado por Abu Dimashe em sua Hamasah e em Ouram ouviu-se certa vez, às portas da alquasaba vermelha, o zéhel de um taqsin sobre este tema, atribuído a um poeta de Fez, às margens do Oued, no vale de Abiod, sob a dinastia dos oatácidas, por Al-Wassan, o que traiu Alláh, discípulo de um discípulo de Aben Khaldun.
É fato que em cento e sessenta anos tornaram outros sangues a jorrar pelos Mohacs, inversa agora a trama, morrem aos milhares outros turcos, pela astúcia de Saboia-Carignano, a quem os feitos foram tributados, tanto por cronistas quanto emires, ao sacro-imperador, agora novo rei dos Húngaros. Derretidos os dirrans, restaram só as flautas, ora chamadas nafir ora al-boka, presente de Uzbeque, grande Khan.
Ignora-se a ocasião em que a primeira charamela deixou de ser simples flauta de caniço, mas é fato que tal evento contundente e universalmente relevante se deu entre os Bálcãs, o Oriente Próximo e ao sul dos Urais. Sabe-se menos ainda quem o tenha levado para o Leste da Europa. O que conhecemos, com razoável plausibilidade, é que foi apenas nos anos em que Hottetere tocava em Roma, sob auspício e patronato de Francesco de Rupoli, que aquele rudimentar instrumento, tomado de pastores nômades de antiga tradição centro-asiática, ao sul do que é hoje a Rússia, chegou à França.
E, sobre o tablado do Ateneul Român, entre violinos e fagotes, o rapaz franzino que executa em allegro moderato o solo de oboé do segundo concerto para piano de Liszt ignora todas estas coisas.
11 de Novembro de 2023.
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