A perspectiva da Ética e da Política sob a ótica de Maquiavel: uma análise crítica.
A PERSPECTIVA DA ÉTICA E DA POLÍTICA SOB A ÓTICA DE
MAQUIAVEL: UMA ANÁLISE CRÍTICA.
Guilherme Queiroz de Souza
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| (Autorretrato de Maquiavel) |
Resumo
Esta pesquisa explora a perspectiva da ética e da política segundo de Nicolau Maquiavel, focando em sua abordagem revolucionária para questões de governança e moralidade. Analisamos sua principal obra “O príncipe”, destacando o manuscrito como essencial para ciência política e como Maquiavel desafia conceitos tradicionais de ética e propõe uma visão pragmática e realista das relações de poder, rompendo esses paradigmas estabelecidos pela religião cristã nas concepções de Virtù e Fortuna.
Palavras-Chaves: Ética; Política; Maquiavel.
Introdução
Nicolau Maquiavel, um dos mais influentes pensadores políticos da história, desafiou as concepções tradicionais de ética e moralidade com sua abordagem pragmática e realista da política. Ao longo dos séculos, suas ideias têm sido objeto de intensos debates e análises, provocando reflexões sobre a natureza do poder e da conduta humana. Neste artigo, exploramos a perspectiva da ética sob a ótica de Maquiavel, destacando como suas obras oferecem uma visão radicalmente diferente da moralidade política.
Maquiavel viveu em uma época de agitação política na Itália renascentista, testemunhando os caprichos da fortuna e a instabilidade do poder. Em sua obra "O Príncipe" publica postumamente, ele delineou princípios e estratégias para a governança eficaz, muitas vezes desafiando noções tradicionais de virtude e moralidade. Para Maquiavel (2017), o governante eficaz não é necessariamente aquele que adere estritamente a princípios éticos preestabelecidos, mas sim aquele capaz de manter o poder e a estabilidade do Estado Central para a filosofia política maquiavélica está a distinção entre "Virtù" e "Fortuna". Enquanto a Virtù representa a habilidade, a astúcia e a determinação do governante. Em oposição, Fortuna refere-se ao acaso, isto é, as mudanças temporais e os eventos imprevisíveis podem influenciar significativamente o destino tanto de um “príncipe” quanto de uma nação, alterando seu curso.
Essa distinção, juntamente com sua famosa máxima de que "o fim justifica os meios", tem sido objeto de interpretação e controvérsia ao longo dos séculos, levantando questões fundamentais sobre a natureza da moralidade e da conduta política.
Ao examinar a perspectiva da ética sob a ótica de Maquiavel, este artigo busca não apenas compreender suas ideias em seu contexto histórico, mas também explorar sua relevância para o pensamento ético e político contemporâneo. Em um mundo marcado por complexidades políticas e dilemas éticos, as lições de Maquiavel continuam a desafiar nossas suposições e a nos instigar a refletir sobre os fundamentos da governança e da conduta humana.
A obra “O Príncipe”: Contexto histórico-político
Muitas obras literárias são consideradas com título de “Canônicas”, pois trazem ideias ditas revolucionárias em que geram debates até os dias atuais. Nesse caso, a obra “O Píncipe” é vista como o primeiro manuscrito da qual seria nomeada futuramente como Ciência Política (MARQUES, 2015), visto que se propõe a discutir esses aspectos de uma maneira que na época de Maquiavel era conceituadas como perversas e imorais.
Ao analisarmos esta obra, precisamos entender o contexto histórico-político, a qual ela foi escrita. Na época a Itália em que Maquiavel viveu entre os séculos XV e XVI, era dividida em cinco grandes regiões (Reino de Nápoles, os Estados Pontifícios, Estado Florentino – controlado pela família Médici, Ducado de Milão e a República de Veneza). Nesse sentindo, passava por inúmeros conflitos territoriais e políticos, Mandarano (2008) ainda salienta-se que, com o falecimento de Lourenço, o Magnífico, em 1492, seria quebrado um delicado equilíbrio alcançado através de diplomacia ao longo do século XV, o que resultaria no recrudescimento dos conflitos entre as regiões. Durante este período, Maquiavel desenvolveu uma série de conselhos sobre a governança política, advogando por certas atitudes e ações que, embora possam ser julgadas como imorais, eram vistas pelo autor como imprescindíveis para alcançar o bem comum. Além disso, ele ofereceu uma perspectiva sobre a natureza humana, argumentando que o homem nasce inerentemente corrompido e propenso à traição. Essas ideias podem ser claramente observadas no seguinte trecho:
Disso surge uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. A resposta é de que seria necessário ser uma coisa e outra, mas, como é difícil reuni-las, é muito mais seguro ser temido do que amado, quando se deve renunciar a uma das duas. Porque dos homens pode-se geralmente dizer que são ingratos, volúveis, simuladores e dissimuladores, temerosos dos perigos, ambiciosos por ganhos. E enquanto os tratares bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida e os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja distante de ti. (MAQUIAVEL, 2014, p. 82).
Com a publicação póstuma de seu livro "O Príncipe" em 1531, Maquiavel foi alvo de numerosas críticas por parte dos intelectuais de sua época, uma vez que sua visão sobre ética e moral se divergia completamente dos padrões aceitos naquele período. Segundo Guimarães (2010), Maquiavel desafiava os paradigmas estabelecidos pela Igreja Católica, questionando suas concepções do que era ético e moralmente correto. Isso causou um desconforto imediato na sociedade cristã, que passou a retratar Nicolau Maquiavel como alguém imoral, escrupuloso e maldoso. Posteriormente, seu nome se tornou um adjetivo usado para descrever indivíduos de índole questionável, alguém tido como maquiavélico. Nesse viés Amaral (2012, p. 29) reforça esta ideia afirmando que:
[...] característica marcante do pensamento maquiaveliano é a rejeição completa ao legado ético cristão da Medievalidade e a constituição de uma moral laica de base naturalista. Isto vai nos levar à secularização da política, movimento de ruptura com o pensamento político medieval que vinculava política à religião, à Igreja. É, por romper estes laços da política com a religião que Maquiavel entrou para a história como o fundador da ciência política. Foi ele o primeiro pensador a tomar a política e analisá-la como uma categoria autônoma.
Nisso, podemos ressaltar a importância do filósofo para construção de uma nova visão sobre a ética e a política, destituindo-as do escopo da Igreja Católica que eram intrinsecamente ligadas que, consequentemente, influenciava não somente os indivíduos comuns, como pensadores letrados de seu tempo. Maquiavel enxerga esses elementos como agentes autônomos que necessariamente não precisavam estarem dependente ao uma instituição social, tornando-se o pai da Ciência Política.
Conceitos de Virtù e Fortuna
Uma das distinções mais importantes na obra de Maquiavel é aquela entre "virtù" e "fortuna". Esses conceitos representam elementos-chave em sua visão da ética política e da conduta do governante.
Arnaut e Bernado (2002, p. 97) conceituam que virtù “[...] a todo o conjunto de qualidades e possibilidades, sejam elas quais forem, cuja aquisição o príncipe possa achar necessária a fim de ‘manter seu estado’ e realizar grandes feitos”. Isso para o pensador, é essencial para a governança eficaz e para a realização dos objetivos políticos do governante, mesmo que isso seja contra os princípios da moral cristã.
Por outro lado, a fortuna representa as forças externas e imprevisíveis que podem influenciar os destinos dos indivíduos e dos Estados. De acordo com Bobbio (1998, p. 87), Maquiavel conceitua a fortuna como o curso dos eventos que ultrapassam o controle humano. Apesar de sua independência da vontade humana, a Fortuna pode ser influenciada pelo líder que demonstra virtù. Assim, a fortuna é um elemento que escapa ao controle humano e pode tanto favorecer quanto prejudicar os esforços políticos de um governante.
A distinção entre virtù e fortuna é crucial para a compreensão da ética maquiavélica, pois destaca a importância da habilidade e da adaptabilidade do governante em lidar com as circunstâncias políticas variáveis e muitas vezes desafiadoras. Ao reconhecer a influência da fortuna, Maquiavel enfatiza a necessidade de os governantes estarem preparados para responder a mudanças inesperadas e para ajustar suas estratégias conforme necessário para garantir a estabilidade e o sucesso político.
Essa distinção entre virtù e fortuna reflete uma visão complexa da ética política, na qual considerações pragmáticas e realistas se sobrepõem a ideais de moralidade convencional. Ao explorar esses conceitos, Maquiavel oferece insights importantes sobre a natureza do poder e da conduta política, desafiando as noções cristãs de ética e moralidade e provocando reflexões sobre a complexidade das questões éticas na esfera pública.
Considerações finais
A análise da perspectiva da ética sob a ótica de Maquiavel revela uma visão complexa e muitas vezes controversa da política e da moralidade. Ao longo deste artigo, exploramos as ideias revolucionárias de Maquiavel, que desafiaram as concepções tradicionais/cristãs de ética e moralidade prevalecentes em seu tempo e continuam a gerar debates e reflexões na atualidade.
Maquiavel introduziu conceitos-chave, como virtù e fortuna, que se tornaram fundamentais para sua compreensão da ética política. Sua ênfase na eficácia e na estabilidade do Estado muitas vezes o levou a adotar uma abordagem pragmática e realista, na qual considerações éticas convencionais eram subordinadas ao interesse do governante em manter e consolidar seu poder.
Embora as ideias de Maquiavel possam ser interpretadas de várias maneiras e tenham sido objeto de críticas intensas ao longo dos séculos, sua relevância para o pensamento ético e político contemporâneo não pode ser subestimada. Em um mundo marcado por complexidades políticas e dilemas éticos, as lições de Maquiavel continuam a desafiar nossas suposições e a nos instigar a refletir sobre os fundamentos da governança e da conduta humana.
Ao final, a análise da ética maquiavélica nos leva a reconhecer a complexidade e a ambiguidade das questões éticas na esfera política. Embora as ideias de Maquiavel possam ser desconcertantes e até mesmo perturbadoras, elas nos convidam a questionar nossas próprias concepções de ética e moralidade, e a considerar as implicações de nossas ações políticas à luz de uma visão mais ampla da política e da história.
Assim, ao analisar a perspectiva da ética e da política sob a ótica de Maquiavel, somos desafiados a abraçar a complexidade e a incerteza inerentes à política, e a buscar um entendimento mais profundo das relações entre poder, moralidade e conduta humana na esfera pública.
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Trabalho proposto e supervisionado pelo Professor Dr. Daniel Batista Lima Borges através do Componete Curricular Literatura Portuguesa II.
Escrito por Guilherme Queiroz de Souza. Graduando do curso de Letras Português e Francês e suas Respectivas Literaturas da Universidade Federal do Estado do Amapá (UNIFAP). Santana-AP.
Email: guguiqueiros@gmail.com
Referências
AMARAL, Márcia do. Maquiavel e as relações entre ética e política. In:
ARNAUT, Cezar; BERNARDO, Leandro Ferreira. Virtù e Fortuna no pensamento político de Maquiavel. Acta Scientiarum. Maringá, PR, v. 24, n. 1, p. 91-102, 2002.
BOBBIO, Norberto. Dicionário de Filosofia Política. Trad.: Carmen C. Varriale etal. 11ª Ed. Brasília: Ed. UNB, 1998.
Ensaios Filosóficos, v. 5, p. 25-37, 2012.
GUIMARAES, Carlos Nunes. Maquiavel e Max Weber: ética e realismo político. Argumentos Revista de Filosofia, Fortaleza, v. 2, n. 4, p. 38-45, 2010.
MANDARANO, Luís Gustavo. “Segredos do Príncipe” ou “Jerônimo Osório e de como reagiu o mundo católico da ibéria às ideias de Nicolau Maquiavel” (Séculos XVI e XVII). 2008. 100 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2008.
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Lafonte, 2017.
MARQUES, Carlos Alexandre Michaello. A Ética em Maquiavel e suas implicações na política. Revista Enciclopédia de Filosofia, v. 4, n. 1, 2015.

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