O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (Darcy Ribeiro).


O documentário "O Povo Brasileiro", em uma recriação da narrativa literária da obra homônima escrita pelo antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro - assume uma grandiosa responsabilidade de introduzir uma explicação a formação de um povo novo, voltado para um futuro que está cheio de raízes do passado. Evidenciando dessa forma, o resultado de encontros e desencontros de diferentes culturas, uma fusão genética, espiritual e patrimonial de uma terra que se formou através da carne mestiça. Aprende-se não só sua formação, mas quem é: o índio, o negro, o português e o povo brasileiro de uma sociedade imersa dentro do movimento humano.

  O autor perene e sagaz Darcy Ribeiro (1922-1997) se destacou por seu trabalho em defesa da causa indígena e da educação. Além de antropólogo foi sociólogo, escritor e político brasileiro, o que o levou a ganhar honrarias, como os títulos de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade do Uruguai e da Universidade de Brasília, em 1995. No mesmo ano escreve seu último livro intitulado "O Povo Brasileiro - a Formação e o Sentido do Brasil ", onde faz uma síntese de trinta anos de pesquisa. O livro, fonte de inspiração do documentário dirigido pela Isa Grinspum Ferraz e produzido pela Fundação Darcy Ribeiro, TV Cultura e GNT, aborda a história da formação do povo brasileiro ao tratar das matrizes culturais e da formação étnica dos mesmos.

  A obra documental propõe desde o primeiro momento um mergulho profundo na história do Brasil, apresentando os aspectos dos seus povos originários até a formação de uma nação. O que se expressa por uma narrativa inclusiva, disposta a oferecer uma discursão dos conflitos sociais que chegam até os dias de hoje. A produção do filme foi alongada por uma série de episódios. No primeiro episódio são relatadas a diversidade étnica das comunidades indígenas que se nota a importância de compreender da onde nasce o Brasil. E ele nasce sob o ciclo da utopia, da terra sem mares, a terra que diz respeito a "Matriz Tupi", dos Tupinambá que foram os primeiros que os portugueses tiveram contato. 

  Esses indígenas, os "Tupis" tinham uma sociedade estruturada e auto suficiente, praticavam diversos rituais e tinham uma crença culta e expressiva baseada na atuação de divindades dentro da natureza e das formas de vida que nela se encontrava. Praticavam antropofagia em momentos de guerra e no auge de sua cultura se bastavam a si mesmos, pois o índio sabia fazer tudo que precisava em sua vida: caçar, criar, guerrear, construir, etc. As mulheres cuidavam da roça, do preparo da comida e do vinho que animavam as festas Tupi, e eram grandes artesãs. E já na orçada masculina a fabricação de arcos, flechas, bordunas e canoas era comum. Entre os indígenas nunca houve uma delimitação clara entre trabalho e arte. A poesia, a música, a dança e o vinho permeavam toda a vida social dos Tupinambá. Mas a mais honrada atividade era a guerra, entre eles a relação era pacífica e amigável, com seus inimigos eram implacáveis.

  Em um grupo indígena o que um sabe todos podem saber, ninguém se apropria da informação para transformá-la em poder político ou econômico para dominar outras pessoas. Ninguém era dono da terra. A terra é um bem comum daquela aldeia. O conceito de “chefe" em uma tribo indígena é o fiel representante da tradição, da experiência, da cultura daquele povo, é o grande mediador. Dos povos indígenas herdamos centenas de frutos, árvores, ervas e a herança nobre do testemunho de que é possível um povo viver magnificamente integrado a natureza, numa trama secreta de coexistência pacífica e amistosa. E é muito difícil pra nossa cultura suportar tanta beleza e veracidade dessa natureza.

  Ao prosseguir, no segundo episódio, se analisa com criticidade a formação portuguesa para o tecido cultural e social brasileiro, a "Matriz Lusa" - que surge o seguinte questionamento: como é que se explica que um povo - portugueses e espanhóis se expandem e criam a primeira civilização mundial?. O caminho encontrado pelos portugueses foi o de expandir suas fronteiras para além do mar com conquistas exploratórias em colônias na África e no Brasil, pois, Portugal tem fronteiras extensas que o fizeram ser um país de pescadores, um país de navegadores e necessariamente um país onde a tecnologia naval foi desenvolvida por ser uma questão de sobrevivência. E isso resultou numa formação tecnológica com contribuições de povos árabes, judeus e de toda massa cultural e científica que existia na península.

  Desde os tempos remotos, o território português serviu de ponto de encontro entre os lusitanos e galegos vindo de caminhos em busca do cobre, viviam em uma economia pastorile praticavam cultos e oferendas aos deuses. As características de Portugal se contrastavam com tudo que se via pela Europa, a começar pela precocidade do seu surgimento como nação, a primeira do mundo. No século VIII a.C. Os fenícios invadiram a península trazendo a metalúrgica do ferro, as primeiras formas de escrita e o conceito de cidade, depois vieram os gregos e os cartagineses (gente marcada pela navegação e pelo comércio).

   Os europeus se orgulham muito de dizerem que são herdeiros da cultura latina e grega, mas isso é um equívoco, pois foram os árabes que os ensinaram - os que sabiam e tinham os textos de Aristóteles e Platão, que tinham os números e a escrita, os algoritmos que usamos até hoje. Portugal sob o domínio muçulmano era um colorido mosaico de mercadores, artesãos e antigos camponeses de raízes étnicas muito variadas. O que resultou no estabelecimento de feitorias e a criação de empresas produtoras de gênero tropicais. O moinho d'água, o algodão, a ceda, a laranjeira, a cana de açúcar, o azulejo, e a doçaria - são algumas influências dos portugueses que se fazem presentes no Brasil.

  O terceiro episódio destaca a formação do povo brasileiro a partir da "Matriz Afro" e dos povos egressos da África. Esses negros que atravessaram o oceano atlântico para desembarcar no Brasil - de Angola, do Congo, de Moçambique, da Nigéria e de outros povos do continente negro passaram a ser a massa substancial da força de trabalho no Brasil. Considerando desde então seus pensamentos, costumes, crenças, artes e rituais.

  A África era um continente de escravos e de senhores de escravos. No reino do Congo, a aristocracia: empregava escravos no cultivo dos campos; escravos eram comprados e vendidos; usados como soldados e lavradores; servindo ainda de moedas para transações comercias. Assim quando os europeus e africanos se encontraram, ambos já sabiam muito bem o que era escravidão. A África nunca foi uma realidade homogênea em termos humanos ou culturais. Sua ética negro - africana é antropocêntrica e vital.

  Os africanos que primeiros chegaram aos tópicos brasileiros vieram da costa ocidental africana ao norte do Equador, que foi designado o chamado "Ciclo da Guiné", depois foram os "Bantus", vindo das regiões de Angola e do Congo. E esses, o sagrado estava presente em todos os instantes, o natural e o extra natural eram inseparáveis. Acreditavam na existência de dois mundos: o visível, e o invisível, e ambos se interagiam continuamente. Na aldeia possuíam casas e campos e eram proprietários da terra e da água, das florestas e do sertão, com todos os animais que no espaço viviam.

  As artes africanas e as culturas africanas podem ajudar a salvar o homem contemporâneo que esqueceu, por completo, que existem outras coisas para além dos valores econômicos. Podemos dizer que a arte africana se desenvolve sobre quatro pilares: a pessoa, a comunidade, a natureza e a criação. Mas, também, sobre a tradição, o passado e a história. E que esses quatro pilares se manifestam com exuberância através de formas extraordinárias, formas que não representam a realidade tal qual a percebemos, mas que procuram representar os valores que estão além do real. Por meio disso, os africanos criaram formas esculturais e artísticas únicas no mundo.

  Os grupos étnicos de língua Yorubá e outros agrupamentos vieram para promover definição única na fisionomia biológica e cultural de gente da Bahia, de Recife e de São Luiz do Maranhão. Toda cultura brasileira está marcada dessa cultura africana, que se faz presente em quase tudo a que se fez. O que aconteceu no Brasil foi que os africanos foram tão fundos na construção desse país que hoje eles já não são eles, eles são os próprios brasileiros.

  Indo adiante, o quarto episódio traz extratos do processo de colonização do Brasil, que se apoia na cultura nacional como uma cultura subjetiva de povos africanos, portugueses e indígenas. O que resulta em uma fusão - genética, de mestiçagem e espiritual. E dando início a um árduo processo de colonização pelas forças de trabalho do regime escravocrata.

  Na fundação do Brasil dois projetos de “Colonização” se opõem a ferro e fogo: 1) O colonial que cruamente aliciava os índios com força de trabalho; 2) E o religioso que tentava criar com os índios uma república. O genocídio provocado por essa escravização e pela catequese tornava inevitável uma carnificina marcada pela história da formação de um povo misturado, retalhado e pasmado no espírito.

  A cultura brasileira é sobre tudo que se guarda: uma técnica de artesão, uma habilidade, o modo de falar, de inventar e de se expressar. E essa fusão de confluência entre o espiritual e o real valoriza a cultura de cada matriz que pertence a história desse povo mestiço, que aceita o desafio da mistura e da composição natural de sua ancestralidade.

  Portanto, Darcy Ribeiro em sua obra sobrepuja seus estudos em expressar um povo forte, de voz única, de patrimônios culturais exuberantes e conclui que o Brasil surge do sincretismo e das confluências de um povo novo, que apesar da fusão de matrizes diferenciadas se comporta como uma só gente. Conclusão essa, que não condiz com a realidade de hoje, pois infelizmente há no Brasil – o racismo, a separação social, a seleção de raças, a homofobia e os diversos tipos de preconceito. A partir da feitura desse trabalho, destaco toda dimensão alcançada pela reprodução fílmica que tratou com total rigor a importância substancial da formação do povo brasileiro. Tratando sua tradição respeitosamente em fazer da verdade desse povo, uma verdade próspera, analítica e astuta com sua continuada formação humana.

-
Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento. 
Acadêmico do curso de Filosofia da Universidade Federal do Amapá.
email: jlucasalmeida255@gmail.com

-

REFERÊNCIAS

GRINSPUM, I. et al. Fundação Darcy Ribeiro. Documentário: O povo Brasileiro. 2000.

OPERÁRIOS. Tarsila do Amaral, 1933.

Comentários