Ética Grega: uma busca por excêlencia moral e pela felicidade para Sócrates, Platão e Aristóteles.

No período clássico da filosofia no século V a.C., quando se democratiza a vida política da antiga Grécia e principalmente de Atenas, surge com fervor problemas éticos, sobretudo problemas políticos e morais. Visto que o homem grego estava estritamente ligado à pólis enquanto cidadão. E por ser um membro de uma comunidade ligada a política, passa a buscar caminhos para alcançar a excelência moral; a eudaimonia; e o domínio racional sobre as paixões e os instintos. Mas afinal, como alcançar a felicidade? Onde encontrá-la? Como dominar racionalmente nossos desejos e nossas paixões? Como ser bom? Para tais respostas aos questionamentos, as ideias de Sócrates, Platão e Aristóteles serão usadas como meio de chegada aos objetivos dessa discussão: perpassar pelas definições que esses filósofos defendiam sobre a essência do homem e suas características como ser politico, acentuar a ideia do bem, assim como expor os meios para ser bom e conseguir alcançar a felicidade. 

   A Ética Grega, propriamente dita como Ética da era do "ser", apresenta uma noção do mundo que irá nos conduzir á essência do ser de todas as coisas. Possuindo variações conceituais e tendo a psiqué (alma) como seu centro, a areté (virtude, excelência) como virtudes morais a serem alcançadas e a eudaimonia (felicidade) como seu fim último. Isto é, para os filósofos gregos: a alma é o centro da ética, pois essa trás benefícios para a alma; a virtude é a excelência da coragem, justiça, piedade, etc.; e a felicidade é o modo de ser que aperfeiçoa a natureza humana.

      Hercules escolhendo entre o Vício e a Virtude. (1596), Annibal Carrache

   No diálogo titulado "Hípias Menor", Sócrates e o sofista Hípias de Élide discutem o caráter de Ulisses e Aquiles, personagens descritos nos poemas de Homero. Tal discussão tem a finalidade de expor a tese Socrática que diz "ninguém consegue realizar o mal voluntariamente." Pois, se alguém conhece o que é bom, logo, fará o que é bom. 

Sócrates: - (...) E serão astuciosos e enganadores em virtude de simplicidade muito própria e curteza de espírito, ou, pelo contrário, por astúcia e certa espécie de inteligência? 
Hípias: - Por astúcia e inteligência, sem dúvida.
Sócrates: - donde se conclui, então, que são inteligentes. (..) Sendo inteligentes, sabem ou não sabem o que fazem? 
Hípias: - Sabem-no muito bem; por isso mesmo, fazem mal aos outros.
(Platão, Hípias menor, 365 d-e. p.168).

   Desse modo, Sócrates valida o conhecimento derivado da essência humana, pela qual se pode fundamentar uma moral universal, já que somos seres racionais e é na razão que as normas éticas devem se fundamentar. Já a alma humana para Sócrates se torna perfeita através da ciência e do conhecimento. E o conhecimento como principal virtude humana conduzirá o homem à uma conduta ética e para o aperfeiçoamento da razão, que após essa sucessão, conseguirá controlar as paixões, os desejos e os instintos. Portanto, o filosofo conclui que para alcançar a felicidade, basta o conhecimento.

   Em continuidade, no livro VII da obra "A República" de Platão, se encontra o mito da caverna, uma alegoria para explicar a condição do homem, aprisionado pelos sentidos e os preconceitos que o impedem de chegar no conhecimento da verdade. Onde, somente o sábio pode se libertar e contemplar o Bem, a saber, o que não são as coisas materiais, mas tudo aquilo que permita o engrandecimento da alma. SÓCRATES - Pois agora, meu caro GLAUCO, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a ideia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria no negócios particulares e públicos (PLATÃO, 1956, p.291).

   O filósofo assim como Sócrates propõe uma ética racionalista que depende da sua concepção dualista do mundo sensível e do mundo das ideias permanentes, dando ênfase na separação corpo e alma. E afirma: o homem deve se formar espiritualmente no Estado e só pode ser bom enquanto bom cidadão. Para Platão a sabedoria deve ser a virtude básica, pois diante dela podemos unificar todas as outras virtudes. E finda que para alcançar o bem, deve-se se afastar do mundo material e não deixar que os enganos do corpo (as paixões, os desejos) cometa o desvio da busca pela verdade e justiça.

   No que se concerne a felicidade, através das investigações de Platão, seria o fim último do homem, já que o mesmo a busca incansavelmente. Sendo essa felicidade consistente na contemplação da vida e no aperfeiçoamento da razão. E Platão totaliza: o individuo bom é aquele que não pensa em si só, mas guia suas ações para beneficiar também, aos outros.

   Ademais, Aristóteles, ao desenvolver uma ética também racionalista, exprime as noções de virtude, justiça e felicidade. Por vez a virtude para o filosofo é uma pratica que precisa se tornar um hábito através do esforço do individuo. A justiça se relaciona com a noção de meio-termo, dando aquilo que se é devido a cada individuo. E a felicidade é o fim que todo ser humano busca, o bem e o desejo maior que guia todas as ações humanas. E para alcançá-la o ser humano precisa pautar sua vida no fortalecimento de suas virtudes, se baseando no pensamento, na justiça e na razão.

Sendo assim, as ações virtuosas devem ser aprazíveis em si mesmas. Mas são, além disso, boas e nobres, e possuem no mais alto grau cada um destes atributos, porquanto o homem bom sabe aquilatá-los bem; sua capacidade de julgar é tal como a descrevemos. A felicidade é, pois, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não se acham separados como na inscrição de Delos:  Das coisas a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde;  Mas a mais doce é alcançar o que amamos (ARISTÓTELES, 1991, p.13).

   Diante do exposto, conclui-se que no espaço que circunscreve a Ética Grega, os filósofos se perguntavam sobre a verdadeira realidades das coisas e se preocupavam com a virtude do homem grego. Indo ao encontro da ideia do bem, assim como na busca pela felicidade e os meios corretos para encontrá-la. Atuando numa gama de investigações dentro da relação do homem grego com a pólis. Onde o mesmo é bom enquanto bom cidadão; enquanto consciente de suas ações; enquanto figura de um destino simbólico, imutável; ou enquanto obter a tranquilidade da alma e o autocontrole sobre si. Expressando a essência na soma de ações virtuosas, que depende da excelência da pratica, vindo a se tornar um hábito.

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Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento. 
Acadêmico do curso de Filosofia da Universidade Federal do Amapá.
email: jlucasalmeida255@gmail.com



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Referências

PLATÃO. Hípias Menor, Introdução, Versão do Grego e Notas de Maria Teresa S. Chiappa Azevedo. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1990.

PLATÃO. A REPÚBLICA. 6° ed. Ed. Atena, 1956.

Aristóteles. Ética a Nicômaco ; Poética / Aristóteles; seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. — 4. ed. — São Paulo : Nova Cultural, 1991. — (Os pensadores ; v. 2).

VIEIRA, Sadoque. Ética grega antiga, um resumo. Filosofia do Início, 2021. Disponível em: https://filosofiadoinicio.com/etica-grega-antiga/. Acesso em: 26 de Abr. de 2023.

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