Antístenes de Atenas e a Escola Cínica.
Antístenes de Atenas foi um discípulo de Sócrates e está entre os chamados socráticos menores. Apesar de não estar listado entre os principais pensadores do século V a.C. ao lado de Sócrates, Platão e Aristóteles, Antístenes é considerado um dos primeiros marcos teóricos da escola Cínica. Por esse motivo, Antístenes possui contribuições na compreensão do saber, ou conhecimento, relacionando discurso e felicidade, estabelecendo critérios para a ação humana de tal maneira que será o alicerce do cinismo no período helenístico durante o século IV. Sobre o Cinismo, enquanto escola filosófica, pode-se compreendê-lo como uma doutrina de uma das escolas socráticas, mais precisamente da que foi criada por Antístenes de Atenas (séc.IV a.C.) no Ginásio de Cinosargos. É provável que o nome da doutrina derive do nome do Ginásio, ou então, como dizem outros, do seu ideal de vida nos moldes da simplicidade (e do descaramento) da vida canina (ABBAGNANO, 2007, p. 141).
Vale dizer que a construção do saber para Antístenes perpassa sua noção educacional. Para ele, a educação visa o esclarecimento dos termos do discurso. Para Antístenes, o papel do discurso sobre os objetos é qualificar, não definir. Nesse sentido, é possível notar divergências entre as noções platônicas. Enquanto que em Platão os objetos do mundo devem ser buscados em sua qualidade ideal, por exemplo, os cavalos devem ser instrumentos para a busca dialética da Ideia de cavalo perfeito e as cadeiras devem ser instrumentos para a busca dialética da Ideia de cadeira perfeita. Para Antístenes, por outro lado, a ideia de cavalo ou cadeira perfeitos são produtos do pensamento e, portanto, construções mentais mediadas pela linguagem. Desse modo, o melhor uso do discurso na construção do saber é qualificar, ou adjetivar, claramente cada objeto do mundo. Isso fica claro dentro da interpretação de Alencar (2019):
Situar a distinção entre a natureza do que existe e a natureza da razão. A maneira de oposição antistênica ao estatuto ontológico que teria sido atribuído a elas por Platão, ao denunciá-las como produto de representação mental [...], indica uma contribuição filosófica importante de Antístenes para o campo dos estudos acerca da linguagem, e da teoria da mente a ela vinculada. (ALENCAR, 2019, p.258).
Dentro da relação entre discurso e felicidade, esclarecendo e qualificando os discursos sobre as coisas é possível alcançar, o que para Antístenes é o único fim do homem, ou seja, a felicidade. Antístenes defende ainda que a felicidade humana está vinculada à virtude, e esta é alcançada quando se atinge um grau de imperturbabilidade. Por meio do esforço físico e intelectual, buscando alcançar a imperturbabilidade o homem deve desprezar as convenções sociais, a comodidade e as riquezas materiais porque esses são elementos aprisionadores na conquista da virtude.
Nesse sentido, Antístenes preza pela simplicidade natural a exemplo dos animais, como ratos e cães. Sendo essa uma das interpretações para o nome da escola cínica, pois kynos equivale à palavra cão. Vale mencionar que o principal discípulo de Antístenes e outro grande nome entre os cínicos foi Diógenes de Sinope, chamado de cão. Dois conceitos-chave dentro do cinismo são parrhesía e anáideia. Enquanto que o parrhésia significa falar, discursar sem amarras, mesmo que infrinja as convenções e modos sociais discursivos, anáideia significa agir sem amarras, desprezando os confortos e comodidades.
Um dos fatores para que as comodidades e confortos materiais e sociais atrapalhem a busca da virtude é o insaciável desejo por sempre mais conforto e comodidade. Como exemplo: imagine que alguém seja pobre e ganhe uma enorme herança. No primeiro momento essa pessoa começa a comprar suas necessidades básicas, em seguida, algumas necessidades supérfluas, por fim, acaba por consumir somente pelo desejo insaciável de consumir e possuir o que ainda não comprou. Esse seria um exemplo do aprisionamento da comodidade.
Em resumo, Antístenes é considerado um dos primeiros "anti platônicos" do século V a.C. por desprezar a noção Ideal dos objetos, valorizando uma construção de conhecimento exclusivamente por meio do discurso e identificando a busca da felicidade por meio da imperturbabilidade ao rejeitar convenções sociais, comodidades e confortos materiais, o que é marca principal da escola cínica. Por tudo isso, Antístenes de Atena é um grandioso exemplo de filósofo entre os períodos Clássico e Helênico.
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Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento.
Acadêmico do curso de Filosofia da Universidade Federal do Estado do Amapá.
email: jlucasalmeida255@gmail.com
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Referências
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.
ALENCAR, Cesar Augusto Mathias de. O exercício da excelência: Sócrates e a filosofia como cuidado da alma. UFRJ: Rio de Janeiro, 2019.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga, vol. 1.
São Paulo: Paulus, 2003.

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