Aristóteles e Sófocles: A Poética Clássica na tragédia grega "Édipo Rei".

O tragediógrafo grego do séc. V a.C., chamado Sófocles nasceu em Colono, cidade perto de Atenas, por volta de 497 a.C. Era filho de um rico fabricante de armaduras e fazia parte da classe elevada, passando a receber uma boa educação. É considerado um dos grandes representantes do teatro grego antigo através de suas obras, entra elas “Édipo Rei” que o consagrou como o maior poeta trágico da Antiguidade Grega.

   A história da tragédia que envolve o rei Édipo, tem início com o seu nascimento, pois segundo a lenda grega, o rei de Tebas Laio foi avisado pelo oráculo de Delfos que uma maldição cairia em sua família, na qual dizia que seu próprio filho o mataria e depois se casaria com a mãe. Após a revelação e o nascimento de seu filho com Jocasta, o rei Laio propôs que o melhor a se fazer seria matar a criança antes que a profecia se cumprisse. E assim ordenou que um de seus servos levasse o menino ao Monte Citéron, que se localizava entre Tebas e Corinto, e lá pregasse os pés da criança e o deixasse para morrer. Porém, o bebê foi salvo por um pastor que o acolheu e o levou para Corinto, onde foi adotado pelo próprio rei Pólibo e sua esposa Mérope que passaram a tratá-lo como filho.

   Anos depois, Édipo já grande realiza sua primeira consulta ao oráculo de delfos e ouve a mesma previsão dada ao rei Laio. Espantado e inquieto em pensar que tal revelação cabia aos seus pais adotivos, Édipo decide abandonar a cidade de Corinto para evitar a maldição e segue a caminho de Tebas. 

   Em certo momento de sua caminhada chega a uma encruzilhada e encontra um velho homem com quem chega a ter uma discussão. Sem saber que aquele homem era rei de Tebas (Laio) e que estava acompanhado por uma comitiva de soldados, Édipo acaba matando todos em um surto de raiva, restando apenas um sobrevivente que consegue fugir do local. É nesse momento que se realiza a primeira parte da maldição, onde o filho mata o próprio pai.

(Édipo e a Esfinge, por Fabre Francois Xavier)

   Prosseguindo a caminho de Tebas, Édipo chega às portas da cidade e se depara com uma esfinge que aterrorizava aquele lugar, a esfinge propõe um enigma que nunca fora selecionado antes. Devorando todos que não o adivinhasse. E esse desafio era: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?” e Édipo reflexivo consegue desvendar, responde: “O homem, que ao amanhecer é a criança engatinhando, entardecer é a fase adulta, quando usamos ambas as pernas, e o anoitecer é a velhice que caminhamos com auxílio de bengala”. Após responder, Édipo derrota a esfinge em acertar o enigma e por seguinte salva a cidade de Tebas do monstro. Se tornando um herói pelos moradores e conquistando não só o posto de rei, como a mão de Jocasta, viúva de Laio, que foi anunciado pelo o sobrevivente do abate como assassinado por um homem misterioso.

   Ao se tornar rei de Tebas, Édipo sem conhecimento se casa com a própria mãe e com ela tem quatro filhos, nesse momento é concretizado a segunda parte da maldição.

(O Oráculo, por Camillo Miola)

   Anos depois uma terrível peste volta a assombrar a cidade de Tebas, momento em que Creonte, irmão de Jocasta consulta o oráculo de Delfos em busca de uma solução. Após a consulta, o mesmo vai ao encontro de Édipo e informa que para salvar a cidade da peste era preciso encontrar e punir o assassino de Laio.

   Ciente de suas obrigações como rei, Édipo convoca seus súditos e começa sua investigação. Onde, estaria presente entre eles o cego Tirésias, que indagava ao rei que o assassino estava mais perto do que se podia imaginar. Ao decorrer da história, chega um mensageiro da cidade vizinha (Corinto), noticiando a morte do rei Pólibo, causando alivio para o rei de Tebas que pensava estar livre de sua maldição, afinal seu pai morre velho, não sendo pelas suas mãos. Mas, pouco sabia que seu pai biológico era na verdade Laio, antigo rei da cidade.

   Dado certo momento depois, Édipo descobre toda verdade sobre sua trajetória, se revelando a ele sua verdadeira história: na qual era filho de Laio e Jocasta. Assim se lembra da sua antiga profecia que o fez sair da cidade de Corinto e percebe que ela se concretiza. Desesperado, fura seus próprios olhos e Jocasta, sua esposa e sua própria mãe, traumatizada se suicida.

(Édipo e Antígona, por Camille F. Bellanger)

   Após o ocorrido, Édipo decide abandonar a cidade, mas antes de assim fazer, permanece alguns anos em Tebas, até que seus dois filhos começam a lutar pelo poder. Atordoado, se torna um andarilho guiado por sua filha Antígona e em seguida - sozinho morre de maneira misteriosa ao se aproximar dos bosques de Colono, lugar que passa a ser considerado sagrado. E dessa forma, se termina a tragédia.

   Dado a exposição sintética da tragédia de Sófocles, passaremos a utilizar a poética aristotélica como fonte primária para analisar os conceitos que Aristóteles apresenta dentro de sua obra “A poética clássica”. Destacando as definições coesivas de tragédia, herói trágico, fábula, peripécia e reconhecimento. De modo que possamos decorrer sobre os momentos que tais conceitos se referenciam dentro da tragédia grega "Édipo Rei".

   Em primeiro momento, é exposto a “tragédia” que se inicia quando o pai de Édipo, Laio, participa da morte de Crisipo, filho de Pélope, que o amaldiçoa solenemente. Por seguinte Laio consulta o oráculo de Apolo e recebe a profecia que seu próprio filho o matará e se casará com a mãe. Até que a profecia se concretiza, pois ele morre pelas mãos de Édipo em uma encruzilhada que ligava Corinto com Tebas. E depois, seu filho se torna rei e se casa com a própria mãe. Sendo esse momento a tragédia, que é a representação duma ação grave, como afirma Aristóteles:

É a tragédia a representação duma ação grave, de alguma extensão e completa, em linguagem exornada, cada parte com seu atavio adequado, com atores agindo, não narrando, a qual, inspirando pena e temor, opera a catarse própria dessas emoções. (ARISTÓTELES et al, 1999, p.24).

   A tragédia organiza uma gama de elementos extensos e completos, por expressar emoções purgantes que vão da paixão para o temor. Utilizando uma linguagem subjetiva que se destaca em momentos adequados, e  não necessitando de alguma ação narrativa, pois ela se torna fonte de contemplação e emoção. Características que podem ser percebidas diante dessa situação que tanto Laio quanto Édipo foram protagonistas, ao enfrentarem o temor da verdade e participarem da gravidade do que vinha a se cumprir.

   Por segundo, é presente o “herói trágico” que diz respeito ao momento que Édipo, apesar de inúmeras premeditações para sua morte, conseguiu sobreviver, sendo salvo no monte Citéron e levado à cidade de Corinto. Onde recebe bons cuidados ao ser adotado pelo rei Pólibo, e chegando nos portões de Tebas desvenda o enigma da Esfinge, a derrotando e salvando a cidade da terrível criatura. Sobrelevando então, as situações que encontrava em sua frente de maneira justa e virtuosa, onde desfrutava de grandes recompensas. Desse modo, o herói trágico para Aristóteles se encontra no seguinte exposto:

Resta o herói trágico em situação intermediária; é aquele que nem sobreleva pela virtude e justiça, nem cai no infortúnio em conseqüência de vício e maldade, senão de algum erro, figurando entre aqueles que desfrutam grande prestígio e prosperidade; por exemplo, Édipo, Tiestes e homens famosos de famílias como essas. (ARISTÓTELES et al, 1999, p.32).

   O herói trágico é aquele que sofre um reverso em sua própria história, sendo esse um momento de heroísmo para si mesmo, pois apesar das situações conseguirá se sobressair com virtude, sendo justo com suas decisões. O mesmo desfruta de grande prosperidade, agindo com sabedoria e prontidão e se deixa ser consumido pelas coisas banais que o cerca, como o vício e a maldade. Sendo usado como exemplo – Tieste e principalmente Édipo.

   Ademais, é notório a “fábula” no que se concerne o momento que Édipo salva Tebas da Esfinge. Ele, ao passar pelo monte Fíquion, avistou um mostro com dorso e cabeça de mulher, corpo de leão e asas de águia, sentada sobre uma rocha, junto à estrada. A criatura também tinha garras de ferro e uma cauda em  que cuja extremidade havia uma cabeça de dragão, uma criatura que vinha causando terríveis males aos tebanos. Muitos heróis havia desafiando a esfinge, mas todos foram derrotados, porque o monstro continha um difícil enigma para ser desvendado, devorando aqueles que não sabiam responder. Entretanto, Édipo com tamanha sabedoria, desvenda o enigma e causa revolta na esfinge, que ao se preparar para atacar se desequilibra, caindo do alto rochedo e morrendo. Tendo como resultado a salvação da cidade de Tebas, se livrando daquilo que à aterrorizava. Portanto, é chamado de fábula para Aristóteles, o que é citado a seguir:

Chamo fábula a reunião das ações; caráter, aquilo segundo o quê dizemos terem tais ou tais qualidades as figuras em ação; idéias, os termos que empregam para argumentar ou para manifestar o que pensam. (ARISTÓTELES et al, 1999, p.25).

   A fábula, enredo ou mito, é a imitação e composição das ações em tal situação. Representando um caráter as figuras em ação, que expressam idéias e argumentos para manifestarem o que pensam. Como acontece no embate de Édipo com a Esfinge, que apresenta a ele um enigma com objetivo de argumentar seus pensamentos referente ao homem mortal.

   Adiante, se conota a “peripécia”, no momento em que Édipo decide sair de Corinto para fugir de sua maldição. E no caminho, discutindo com Laio, o assassina, não tendo a mínima consciência de que aquele era seu pai biológico. Pois, por ser levado ao rei Pólibo e cuidado pelo mesmo, acreditou ser seu filho legitimo. E ao saber de seu destino, foge, desejando escapar do que o aguardava. Dessa forma, jamais esperaria ir ao encontro de sua maldição pensando estar fugindo dela. O que se nota uma reviravolta, onde o autor da poética clássica, destaca na seguinte citação:

Peripécia é uma reviravolta das ações em sentido contrário, como ficou dito; e isso, repetimos, segundo a verossimilhança ou necessidade; como, no Édipo, quem veio com o propósito de dar alegria a Édipo e libertá-lo do temor com relação à mãe, ao revelar quem ele era, fez o contrário; igualmente, no Linceu; este é levado para morrer e Dânao vai empós para o matar, mas, em conseqüência dos fatos, acabou morrendo Dânao e salvando-se Linceu. (ARISTÓTELES et al, 1999, p.30).

   A peripécia, como seu conceito já diz, é o momento de uma narrativa que altera o curso dos acontecimentos de maneira inesperada, e modifica a situação e o modo de agir dos personagens. Ou seja, uma reviravolta das ações, que diz respeito ao momento em que Édipo, em pensar está fugindo de sua maldição, estaria indo na verdade no encontro dela.

   Por fim, temos o “reconhecimento”, que é o momento revelador que Édipo obtém. Sendo esse, o descobrimento de toda verdade sobre sua história: de como foi parar em Corinto, do porquê Laio ter mandado matá-lo, e quem era seus pais biológicos. Levando adiante as profecias que cabiam ao seu pai e que ele seria uma peça importante para a realização das mesmas. Sendo o reconhecimento, como explica Aristóteles no seguinte exposto:

Reconhecimento, como a palavra mesma indica, é a mudança do desconhecimento ao conhecimento, ou à amizade, ou ao ódio, das pessoas marcadas para a ventura ou desdita. O mais belo reconhecimento é o que se dá ao mesmo tempo que uma peripécia, como aconteceu no Édipo. (ARISTÓTELES et al, 1999, p.30).

   O reconhecimento, se refere a tomada de consciência por parte do herói trágico, passando a conhecer toda verdade que desconhecia. Podendo acontecer até mesmo junto a uma peripécia, como exposto na obra do Édipo Rei. Sendo um belo momento que engradece a obra para os contempladores.

   Ademais, concluo que Sófocles escreveu uma das mais belas obras literárias da tragédia grega. Colaborando para uma arte expressiva que se sucedeu entre os tempos, influenciando não apenas a literatura em si, mas a filosofia. 

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Escrito por João Lucas Almeida do Nascimento. 
Acadêmico do curso de Filosofia da Universidade Federal do Amapá.
email: jlucasalmeida255@gmail.com


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Referências

SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM Editores, 1998. 

Aristóteles; Horácio; Longino. A poética clássica. Introdução de Roberto de Oliveira Brandão e tradução direta do grego e do latim de Jaime Bruna. 7 ed. São Paulo. Cultrix, 1999.  


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